Título: Sapezal, uma cidade erguida à sombra da família Maggi
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 01/06/2008, O País, p. 4
Patriarca abriu ruas com recursos próprios e foi o 1º prefeito
SAPEZAL (MT). A linha tênue que divide o público e o privado costurou os principais pontos da breve história de Sapezal, berço político do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi. Emancipado há apenas 14 anos, o município, a 460 quilômetros de Cuiabá, nasceu de uma ousada decisão empresarial do pai do governador, o agricultor gaúcho André Maggi. O patriarca separou parte de suas terras, no Noroeste do estado, para fundar uma cidade destinada a ser o eldorado da soja à beira da Floresta Amazônica. Investiu dinheiro do próprio bolso para abrir as ruas e foi eleito o primeiro prefeito, com todos os 869 votos da eleição inaugural da cidade.
O fundador do Grupo Maggi renunciou ao mandato quando os vereadores se insurgiram contra uma de suas regras: ninguém ali receberia salário para servir ao município. Deixou a cadeira contrariado, mas não abandonou o poder local. Seu sobrenome continuou a dominar as discussões na praça e, há quatro anos, garantiu a eleição do atual prefeito: João Cezar Maggi, primo-irmão do governador e pré-candidato à reeleição pelo PR.
- Não quero ficar mais quatro anos aqui, mas posso concorrer para não deixar a cidade cair em mãos erradas - diz ele, que, antes de assumir o cargo, trabalhou por 30 anos nas empresas do governador.
O DNA influente já rendeu à cidade, de apenas 16 mil habitantes, um privilégio incomum: a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele desembarcou no local para inaugurar uma obra de asfaltamento em novembro de 2006, logo após ser reeleito com o apoio de Maggi. A foto do encontro está no hall de entrada da prefeitura, uma pequena casa de interior vizinha ao prédio de dois andares e fachada de vidro que sedia a Maggi Energia.
Pai de Blairo Maggi é nome de avenida na cidade
O fundador André Maggi, que morreu em 2001, virou nome de avenida e estátua na praça. Apesar da renúncia abrupta, sua trajetória vitoriosa da pobreza à fortuna é admirada por dez entre dez moradores de Sapezal, a terceira maior produtora de soja de Mato Grosso. O nome do primeiro prefeito faz brilharem todos os olhos da família Scariote, que migrou do Paraná no fim dos anos 70, antes mesmo da criação do município.
- Ele fazia as coisas e depois ia ver no que dava - elogia Cláudio, um dos nove homens da família italiana de 14 irmãos.
Como a da maioria dos pioneiros daquela região, a história dos Scariote, fixados inicialmente na serra gaúcha, reproduz em menor escala a saga dos Maggi. O pai, que morreu há dez dias, comprou a primeira escritura numa viagem de ônibus, sem saber se o terreno era fértil para a lavoura. Para financiar a aventura, entregou metade dos 90 hectares que tinha em Vitorino, no Paraná. Os filhos foram levados aos poucos, conforme terminavam os estudos no Sul. Hoje, são donos de quatro mil hectares e produzem generosas safras de soja, milho e algodão.
A pujança econômica da cidade, que exibe indicadores sociais invejáveis, dá alento aos planos do prefeito, que pretende aproveitar a sobra em caixa para agradar aos conterrâneos com a construção de um chimarródromo. Vigia de uma das fazendas do governador, o alagoano Sebastião Santos, que na tarde de quinta-feira colhia sobras de feijão abandonadas por produtores, não faz planos de voltar para casa.
- Na minha terra, só tinha cana para plantar. Eu não vou mais embora daqui - afirma Santos.