Título: Petróleo novo pode mudar a cara da economia
Autor: Paul, Gustavo; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 01/06/2008, Economia, p. 36

Especialistas estimam que só Tupi vai gerar R$14 bi em "royalties" por ano e país pode dobrar suas exportações

BRASÍLIA. A cara da economia brasileira poderá mudar na próxima década, diante da possibilidade de o país dispor de reservas gigantes de petróleo. Economistas e a equipe econômica estão começando a fazer os cálculos do impacto da avalanche de recursos que podem ingressar na economia a partir da segunda metade da próxima década. Estimativas conservadoras apontam que só o campo de Tupi vai gerar R$14 bilhões de royalties por ano quando a área estiver em exploração contínua - 66% do que é pago hoje. Em exportações, a área irá agregar algo em torno de US$20 bilhões ao ano.

Com os demais campos, essas estimativas assumem proporções assombrosas. Estimativas revelam que, em 15 anos, os sete novos campos já anunciados pela Petrobras vão dobrar o volume de vendas ao exterior, elevando-o a US$340 bilhões.

- Estamos falando de outra realidade para o país em 20 anos, com multiplicação da receita de exportação atual - diz Elson Yassuda, economista-chefe da corretora Hedging Griffo.

Para a saúde econômica do país, as perspectivas são as melhores possíveis. O secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, acredita que as receitas de petróleo vão melhorar a política fiscal do país. O caixa do governo poderá aumentar, permitindo que se faça um superávit primário mais elevado e uma redução mais veloz da dívida pública.

- É como se a União ficasse mais rica. Ela passa a ter mais ativos. Isso aumenta as receitas de petróleo e também o primário, o que contribui para reduzir a dívida pública - afirma Barbosa, que não estima o quanto essas reservas podem render à União.

"País pode mudar para o bem ou para o mal"

Essa saudável redução da dívida levaria à uma reação em cadeia inédita: a taxa básica de juros cai, estimulando os investimentos privados e o mercado de capitais. A nação atraente chama ainda mais investimentos de fora. A poupança interna aumenta, transformando o país em um potencial exportador de capitais, como os países economicamente maduros. Com mais receitas, o governo pode aumentar investimentos em infra-estrutura física (estradas, portos, usinas) e social (saúde, educação e previdência). A economia passaria a crescer de forma mais sustentável.

Isso tudo no melhor dos mundos. Mas esses recursos também podem se transformar em um grande problema, caso não sejam criadas regras claras para garantir o usufruto racional do dinheiro nos próximos anos. O risco, alertam os analistas, é o Brasil se transformar em uma Venezuela ou uma Nigéria, países nos quais a receita do petróleo não melhorou a economia local e passou a bancar apenas os gastos públicos em alta.

- O país pode mudar para o bem ou para o mal. Se deixar as regras como estão, corre-se o risco de dilapidar essa riqueza em apenas uma geração - alerta Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica da Fazenda.

Um dos calcanhares-de-aquiles é o câmbio. Nos últimos dias, a consultoria Tendências começou a estudar o tema e espera ter um cenário em alguns meses. Segundo seu analista Walter de Vitto, alguns setores exportadores poderão ter aumentados os problemas com a valorização do câmbio provocada pela entrada de divisas obtidas com exportação de petróleo e derivados e de investimentos diretos e de portfólio:

- Os setores têxtil e de calçados, por exemplo, que já sofrem com o câmbio, poderão continuar sendo prejudicados. Mas terão de se adaptar à realidade - adverte.

Marcos Panassol, sócio da PricewaterhouseCoopers, lembra que, em um primeiro momento, serão estimuladas as importações, pois serão necessários bilhões de dólares de investimentos para colocar os campos em operação. Estima-se que só o campo de Tupi demandará US$30 bilhões para operar.

- Esses investimentos vão mexer com todos os setores da economia.

Mais dinheiro na praça pode também dar combustível à inflação, adverte Gomes de Almeida, do Iedi. Para conter esses efeitos perversos, o economista Samuel Pessoa, professor da Fundação Getulio Vargas, defende a criação de fundos para absorver os dólares e o excesso de receita pública. Reservas maiores em dólar permitem usar as importações para conter preços.

- Parte dos recursos deve ser poupada e outra, usada para gastos públicos que estimulem a economia, a iniciativa privada a investir e a melhoria da qualidade da mão-de-obra. O governo pode também desonerar impostos, reduzindo a carga tributária - diz Pessoa.

Recursos poderiam engordar fundo soberano no futuro

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já disse que pretende usar os recursos do petróleo para engordar o fundo soberano no futuro, como faz o Chile com a receita de exportação do cobre. Mas também há proposta de se criar outro fundo para financiar obras estruturais ou sociais. A Noruega, por exemplo, tem o Fundo Petrolífero, que acumulou US$241 bilhões desde 1990, voltado a financiar a previdência social e a educação.

Uma das idéias em estudo na Fazenda era usar o fundo soberano para apoiar projetos de internacionalização de empresas brasileiras.

- A descoberta no pré-sal e suas possíveis receitas foram elementos que ajudaram o governo a montar o projeto de criação do fundo soberano - afirma Barbosa.

Por enquanto, essa proposta está deixada de lado porque o fundo visará apenas o controle da inflação.