Título: ONU e Banco Mundial defendem explicitamente o etanol brasileiro
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Fonte: O Globo, 04/06/2008, Economia, p. 20
AMEAÇA GLOBAL: Bird pede abertura de mercado ao álcool à base de cana
Para FAO, das Nações Unidas, biocombustível do país é mais competitivo
ROMA e WASHINGTON. Pela primeira vez, uma agência da ONU e o Banco Mundial, que têm culpado indistintamente os biocombustíveis pela atual crise dos alimentos, farão uma defesa explícita do etanol brasileiro. Um documento preparado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), para embasar as discussões da reunião de chefes de Estado iniciada ontem em Roma, diz que, entre os biocombustíveis líquidos, apenas o álcool brasileiro é competitivo. Já o presidente do Banco Mundial (Bird), Robert Zoellick, defenderá na cúpula a abertura dos mercados internacionais ao etanol de cana - caso do produto brasileiro -, para ajudar a conter a alta dos preços dos grãos.
A maior parte das críticas aos biocombustíveis costumava ser generalizada, como se a produção do etanol no Brasil tivesse o mesmo impacto sobre o preço dos alimentos que o etanol de milho produzido nos EUA, por exemplo.
No documento da FAO, intitulado "Bioenergia, segurança alimentar e sustentabilidade: em busca de um acordo internacional", a organização afirma que "o aumento do preço do petróleo e do gás tem tornado a bioenergia mais competitiva". No entanto, continua o texto, "de todos os biocombustíveis líquidos, só o etanol brasileiro à base de cana-de-açúcar tem sido consistentemente competitivo nos últimos anos, sem necessidade de subsídios contínuos."
Para Graziano, tema é de difícil consenso
No relatório, ao qual o site da BBC Brasil teve acesso, a FAO observa que subsídios e isenções fiscais aos biocombustíveis "introduziram distorções de mercado que favoreceram a produção doméstica e, freqüentemente, tecnologias ineficientes". A organização considera ainda que os biocombustíveis "são um fator significativo" no recente aumento do preço de commodities, pois o aumento da demanda por bioenergia tem levado a uma competição por terras.
Com base no documento, a FAO pretende, ao fim da reunião, chegar a um consenso sobre os biocombustíveis. Hoje, os especialistas estão divididos em três posições, segundo a agência: manter a produção como está, aplicar uma moratória ou construir um consenso intergovernamental. Algo que será difícil na opinião do representante da FAO para América Latina e Caribe, José Graziano da Silva.
"Esse é um dos temas mais controversos (da conferência), e eu não arriscaria qualquer prognóstico. Essas conferências emitem comunicados de consenso. E comunicados de consenso, em geral, não descem ao nível de detalhes e, sobretudo, evitam julgar ações que prejudiquem um ou outro país em particular", disse Graziano, por telefone, à BBC Brasil.
No discurso preparado para a cúpula de Roma, Zoellick, do Bird, afirmará que "a produção de comida tem que dobrar nos próximos 30 anos" e "isso significa (...) abrir mercados para combustíveis à base de açúcar, que não competem diretamente com a comida, incluindo da África."
EUA fazem defesa de etanol americano
Ele pregou também a redução de subsídios e tarifas para os biocombustíveis a partir do milho e de sementes oleaginosas, especialmente enquanto os preços desses produtos continuarem subindo no mercado internacional.
O secretário de Agricultura dos EUA, Ed Schafer, aproveitou a cúpula para defender o etanol americano, afirmando que "os EUA estão firmemente comprometidos com a produção sustentável dos biocombustíveis". Os produtores de biocombustíveis de EUA, Canadá e Europa endossaram a defesa. Em carta ao diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, eles pediram que se evitem condenações apressadas.