Título: Subsídio agrícola e etanol dividem ONU
Autor: Paul, Gustavo ; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 05/06/2008, Economia, p. 29
Países tentam evitar vinculação da crise de alimentos com barreiras comerciais
Deborah Berlinck*
ROMA. A declaração política que será divulgada hoje pelos governos reunidos na Conferência da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) sobre segurança alimentar, mudanças climáticas e bioenergia, em Roma, contendo as promessas para combater a crise mundial dos alimentos, estava ontem à noite emperrada num ponto: comércio agrícola. Europeus e americanos se recusam a aceitar uma linguagem no texto que vincule a crise aos pesados subsídios e barreiras agrícolas nas nações ricas. Isto é: qualquer referência ao fato de que os subsídios desestimulam a produção e afetam a segurança alimentar, como insistem o Brasil e outros países.
Anteontem, num discurso para uma platéia de 40 chefes de Estado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apontou os subsídios agrícolas e a especulação dos preços do petróleo como as causas principais do problema. E passou quase 30 minutos de seu discurso desmontando o argumento dos que dizem que o biocombustível, por estar competindo com o plantio de alimentos, também é parte do problema. A disputa pela linguagem da declaração é, na realidade, uma briga de interpretação das causas da crise.
Negociadores brasileiros e de outros países ainda lutavam ontem à noite para incluir uma frase em que os governos se comprometem a concluir este ano a Rodada de Doha - como são conhecidas as negociações da Organização Mundial de Comércio (OMC) para abertura do comércio mundial. Europa e EUA não aceitam sequer assumir que os subsídios agrícolas estão "afetando" a oferta de alimentos no mercado internacional.
Brasil impede que etanol seja apontado como vilão
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse, por sua vez, que é fundamental que se encontre um consenso sobre a produção de biocombustíveis e que ainda são necessários estudos sobre a relação entre esses produtos e a crise dos alimentos. Já o Pontifício Conselho de Justiça e Paz, dirigido pelo cardeal Renato Raffaele Martino, criticou os subsídios concedidos para a produção de biocombustíveis.
A diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos (PAM) da ONU, Josette Sheeran, disse que os biocomustíveis são um dos fatores da crise. Mas ela diferenciou o etanol de cana-de-açúcar do Brasil dos demais.
- Cana é muito diferente de milho - disse ela.
A declaração de hoje vai conter um parágrafo sobre biocombustíveis, mas o Brasil conseguiu evitar que eles fossem apontados como um dos responsáveis pela crise, como queriam vários países do Oriente Médio.
- Trabalhamos para que não haja um texto negativo em relação aos biocombustíveis - disse o embaixador do Brasil na FAO, José Antonio Marcondes de Carvalho.
Josette Sheeran anunciou ainda que o PAM vai destinar mais US$1,2 bilhão para combater a fome em 82 países. Ban Ki-moon, por sua vez, disse que serão necessários até US$20 bilhões por ano para estimular a produção de alimentos e atacar a fome.
(*) Enviada especial, com agências internacionais