Título: Oposição quer ouvir Dilma e Denise, ex-Anac
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Fonte: O Globo, 05/06/2008, Economia, p. 30
Ministra nega acusação de que interferiu na venda de Varig e VarigLog. Ex-diretora da agência diz ter provas
BRASÍLIA, SÃO PAULO e RIO. A oposição deve se mobilizar hoje para aprovar, na Comissão de Infra-estrutura do Senado, um requerimento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) convidando a ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu - que acusou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, de pressionar o órgão regulador para favorecer os compradores da VarigLog e da Varig - a prestar informações. PSDB e o DEM deverão propor ainda a convocação de Dilma. A ministra negou as acusações de Denise, publicadas ontem no jornal "O Estado de S.Paulo", e disse que a lei foi cumprida.
A VarigLog, de cargas, foi vendida pela Varig, em janeiro de 2006, a uma sociedade entre o chinês Lap Chan (dono do fundo americano Matlin Patterson, que injetou dinheiro no negócio) e os brasileiros Marco Antonio Audi, Marcos Haftel e Luiz Eduardo Gallo. Segundo os próprios sócios, os brasileiros eram majoritários - estrangeiros não podem ter mais de 20% de uma empresa aérea. Em julho de 2006, a VarigLog comprou a Varig por US$24 milhões, mas a revendeu à Gol em março de 2007, por US$320 milhões. Denise acusa Dilma de dispensar a comprovação da origem do dinheiro e a participação do investidor estrangeiro.
A líder do PT, senadora Ideli Salvatti (SC), adiantou que o governo vai se posicionar contra o depoimento de Denise:
- Chega de inventar novidade para tumultuar e criar factóides - disse.
Torres ameaçou criar uma CPI se houver o boicote. O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio, já protocolou requerimento com perguntas a serem enviadas a Dilma. O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), disse que a convocação de Dilma seria prematura e que as acusações de Denise só têm peso se ela puder prová-las.
Denise disse ontem ter provas da interferência do primeiro escalão do governo:
- Lógico que não tenho documentos nem fotografia das reuniões para as quais éramos convocados. Agora, de todo o processo dentro da Anac, está tudo registrado. Hoje sou uma cidadã comum e, claro, tudo que for dito terá de ser provado.
- As acusações feitas pela doutora Denise Abreu são falsas. Até estranho as declarações por conta da relação qualificada e consideração que havia entre a Casa Civil e a doutora Denise, até porque ela tinha sido funcionária da Casa Civil, não na minha gestão, mas tínhamos uma consideração razoável pela doutora Denise - afirmou Dilma.
Segundo Dilma, o governo tinha interesse em evitar a falência da Varig, mas a Anac tomou as decisões sobre a VarigLog complementarmente à do juiz Luiz Roberto Ayub, do Tribunal de Justiça do Rio, que tratou da recuperação judicial da companhia aérea.
Denise diz que circulavam livremente na Anac filha e genro do advogado Roberto Teixeira, amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que representava a VarigLog. Em entrevista a "O Estado de S.Paulo", publicada ontem, Audi disse ter pago US$5 milhões a Teixeira e que a influência dele foi decisiva.
Teixeira refutou as acusações, mas não respondeu se sabia quanto cada investidor representado por seu escritório teria desembolsado na compra da Varig. Segundo ele, Audi e Denise tentam politizar uma questão jurídica. Disse ainda que irá processá-los e que "é evidente" que o que os dois "fizeram com essa reportagem foi criar um instrumento de defesa". Em nota, Lap Chan disse que o Matlin Patterson refuta as acusações.
Denise, ligada a Dirceu, deixou Anac após polêmica
Para a presidente da Anac, Solange Vieira, eventuais atos irregulares da diretoria da agência devem ser apurados pelo Ministério da Defesa. Mas o ministro da pasta, Nelson Jobim, diz que não tomará providências pois desconhece o assunto.
Advogada, Denise é ligada ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e ficou 18 meses na Anac. Ficou conhecida por frases chocantes ditas a parentes das vítimas do acidente da Gol, em 2006. Mas o episódio mais grave envolveu o acidente com o Airbus da TAM, em julho de 2007, quando as condições da pista foram questionadas. Ela foi acusada de ter repassado à Justiça de São Paulo uma norma de segurança não regulamentada, que teria sido apresentado como oficial e resultado na reabertura de Congonhas meses antes do fim das obras. Pressionada na CPI do Apagão Aéreo, pediu demissão em outubro de 2007.