Título: Ex-diretora da Anac procurou primeiro oposição
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 07/06/2008, Economia, p. 33

Senador Jereissati diz que Denise o encontrou para fazer denúncia, antes das acusações públicas contra Dilma

BRASÍLIA. Antes de acusar publicamente que foi pressionada pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para aprovar a venda da VarigLog, Denise Abreu, ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), procurou integrantes da oposição para fazer a denúncia. Há cerca de dois meses, ela se encontrou com o ex-presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), em Brasília. A informação foi confirmada ao GLOBO pelo próprio tucano, que preferiu não revelar o local do encontro - a residência de um amigo. Pelo relato do senador, Denise disse que estava sofrendo ameaças e temia pela própria vida, e chegou a afirmar que a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, preparara um dossiê para tentar silenciá-la.

Denise disse ontem ao GLOBO que não negaria nem confirmaria declaração de político algum, pois não quer polemizar.

- Tratei de um assunto político e jurídico. Não vou polemizar essa matéria. Não sou política e não almejo cargo político - afirmou. - E jamais declarei a autoria do dossiê, até porque estou esperando a investigação da polícia.

Na ocasião do encontro com Tasso, o nome de Erenice tinha acabado de surgir na CPI do Cartão Corporativo, como a suposta responsável por ordenar o dossiê com os gastos do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Na conversa com Tasso, que foi presenciada por algumas testemunhas, Denise teria dito que Erenice era a especialista do Palácio do Planalto na elaboração de dossiês. O dossiê que chegou a circular por Brasília dizia que Denise tinha contas secretas no Uruguai e remeteria dinheiro para Luxemburgo.

Em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" publicada na quarta-feira, Denise confirmou a existência desse dossiê. Ela disse que, somente ao ler o dossiê, passou a entender por que Dilma Rousseff afirmou que ela e outro ex-diretor da Anac, Jorge Veloso, faziam lobby para a TAM. O dossiê fazia referências à suposta relação dela e de Veloso com Anchieta Hélcias, vice-presidente do Snea (sindicato das companhias aéreas), ligado à TAM. Mas a ex-diretora da Anac nunca revelou publicamente quem teria sido o autor do dossiê contra ela.

- A Denise disse que o dossiê contra ela foi elaborado pela Erenice Guerra para tentar silenciá-la - disse Tasso Jereissati ao GLOBO.

No Planalto, há uma forte suspeita de que Denise está sendo monitorada e que há um grupo por trás de suas denúncias. Um interlocutor escalado pelo governo para falar com Denise ficou espantado com a tranqüilidade e com a certeza de que ela estava disposta a denunciar Dilma e o compadre do presidente Lula, o advogado Roberto Teixeira - cujo escritório defendeu no processo na Anac o grupo Volo do Brasil, que comprou a VarigLog e a Varig.

Apesar da teoria do Planalto, Jereissati negou que a oposição esteja monitorando Denise e garante que esse foi o seu único encontro com ela.

- Na ocasião, eu poderia ter sido leviano e não fui. Denise não mostrou nenhum papel ou documento das acusações que fazia. Por isso, expliquei que não poderia subir à tribuna para fazer a denúncia. Mas a aconselhei a procurar a imprensa e um advogado, o que, pelo jeito, Denise acabou fazendo - disse o senador, acrescentando que a ex-diretora disse estar sendo perseguida e com muito medo.