Título: Os currais eleitorais no INSS
Autor: Otavio, Chico
Fonte: O Globo, 08/06/2008, O País, p. 3
Vereadores do interior do Rio são acusados de fraudar benefícios em troca de votos
Aagência do INSS em Bom Jardim, cidade serrana a 166 quilômetros do Rio, ficou na semana passada, de uma só vez, sem o chefe e o adjunto. José Nilton Pereira Pinto e Vantuil Marques Chiapini se afastaram dos cargos a fim de disputar a reeleição para a Câmara Municipal. Embora a campanha oficial só comece mês que vem, na prática Zé Nilton e Vantuil estão há tempos batalhando pelo voto.
- Zé Nilton disse que, pela lei, não tinha como me aposentar. Mas prometeu que daria um jeito, desde que eu ajudasse também - conta a lavradora Zilda Muzi Souza, de 66 anos.
Perguntada sobre o tipo de ajuda pedido pelo chefe da agência do INSS, a lavradora abaixa a cabeça e, com um sorriso tímido, responde:
- Ah, ele pediu os nossos votos.
José Nilton, Vantuil e dona Zilda são personagens de um fenômeno que cria raízes na política da Região Metropolitana do Rio e no interior do estado: o uso dos benefícios da Previdência Social como uma máquina de fabricar votos. Funcionários do INSS e médicos peritos se aproveitam das deficiências do sistema, que dificulta a vida dos mais pobres e facilita a dos mal-intencionados, para formar currais eleitorais que os tornam quase imbatíveis a cada pleito.
No casamento política-INSS, as situações mostram a esperteza de quem cria dificuldades para vender facilidades a quem espera um benefício. Além da concessão de aposentadorias em áreas paupérrimas, onde o benefício é a principal renda de uma família, a máquina de votos fatura com afastamento por doenças e acidentes de trabalho. Pelo menos quatro vereadores, um de Nova Friburgo, dois de Nova Iguaçu e um de Itaguaí, são réus em inquéritos sobre quadrilhas que fraudaram a concessão de benefícios em troca de ganhos financeiros e votos. Há outros casos em que o político nem precisa enganar o sistema. Ele prefere enganar os eleitores, parte deles analfabeta, relatando problemas que nunca existiram ou prometendo aquilo que jamais será cumprido.
Não há estatísticas sobre o número de funcionários do INSS, a maioria chefes de postos e agências, e médicos peritos com assento nas câmaras municipais fluminenses. Mas eles estão em toda a parte. Dois deles agregaram as siglas do instituto a seus próprios nomes políticos. Vereador em Belford Roxo, Baixada Fluminense, Rosemberg Oliveira de Lima, ex-funcionário da agência local da Previdência, é conhecido pelos eleitores como "Berg do INSS". Já fez campanha nas filas de benefícios, oferecendo facilidades que abrandavam o sofrimento dos que lutavam para vencer a burocracia pública. O mesmo ocorre em Itaguaí, onde o servidor Lenilson Paes Rangel, o "Lenilson do INSS", obteve a maior votação para vereador em 2004.
Carreira política na fila dos benefícios
Em grotões onde toda a família tem alguém na fila dos benefícios, Zé Nilton conquistou cadeira cativa na elite política. Seu prestígio foi construído às custas de pessoas como a lavradora Judith Freze Tardim, de 65 anos. Viúva e analfabeta, ela vive com quatro filhos em Córrego Santo Antônio, distrito de Bom Jardim. Há dez anos, tenta inutilmente aposentar-se pelo Funrural. Enquanto aguarda, continua dedicando quatro horas de seu dia a roçar, limpar, cavucar, cortar e colher batatas no terreno em frente. O trabalho é penoso e, no fim do mês, ela ainda é obrigada a repassar 20% dos R$400 mensais que consegue produzir para o dono do terreno, que chama de meu patrão. Judith não perde a esperança:
- Na última vez que estive com Zé Nilton, ele prometeu que ia mandar de novo o meu pedido e me pediu voto em troca. Se ele conseguir, arrumo o meu e de toda a minha família.
Por e-mail, o vereador José Nilton disse que todo funcionário público pode ser candidato, mesmo ocupante de cargos de chefia, desde que observe os prazos legais de licenciamento, como afirma ter feito. Nilton disse que é funcionário do INSS há 22 anos, com ficha funcional "absolutamente imaculada", e que seu trabalho é resolver os problemas dos segurados - o que alega ter feito "com absoluto respeito aos cidadãos" e agindo sempre conforme os regimentos internos do INSS. "Sou vereador há apenas 3,5 anos, pré-candidato em 2008 e sofri as mesmas fofocas políticas no pleito passado. São comuns nesse período", disse o vereador por e-mail.
COLABOROU: Aloysio Balbi