Título: Especializadas em propinas
Autor: Damasceno, Natanael; Araújo, Vera
Fonte: O Globo, 09/06/2008, Rio, p. 8

O PEN DRIVE DO BICHO

Relatório da PF revela que até a Draco, que investiga caça-níqueis, recebia mesada de bicheiros.

Nem a Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco-IE), encarregada das investigações sobre as máfias dos caça-níqueis, o jogo do bicho e os bingos, escapou do esquema de pagamento de propinas feito pela contravenção. De acordo com o pen drive apreendido com o bicheiro Rogério Costa de Andrade e Silva, que consta do relatório da Operação Segurança Pública S/A, policiais da especializada teriam recebido R$2 mil mensais na época da prisão do bicheiro, em setembro de 2006.

Além da Draco, outras unidades policiais apareciam na lista da contravenção, segundo a Polícia Federal. São pelo menos cinco planilhas identificadas como "ob. filantrópicas", em que são citados batalhões da PM, delegacias distritais e especializadas e até mesmo viaturas espalhadas pelos bairros de Bangu, Barra da Tijuca, Marechal Hermes, Abolição e Centro, onde Rogério Andrade mantinha seus negócios. Numa das planilhas, a previsão dos gastos com propina, que seria mensal, chega a R$216 mil. Em outras, há uma instrução clara para que os valores fossem pagos nos dias 5 ou 20 de cada mês.

Como O GLOBO publicou ontem, 14 anos depois de estourada a fortaleza do bicheiro Castor de Andrade, a quadrilha comandada por Rogério ainda mantinha mensalões para ex-membros do alto escalão do governo do estado. De acordo com o relatório da PF, há indícios de que Madame, Príncipe e Cardeal, codinomes que aparecem na planilha da contabilidade do contraventor, seriam a ex-governadora Rosinha Garotinho, o ex-governador Anthony Garotinho e o ex-chefe de Polícia Civil e deputado Álvaro Lins (PMDB).

Documentos estão todos codificados

Na próxima sexta-feira, acaba o prazo de 15 dias para que os denunciados entreguem sua defesa preliminar ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça, que decidirá se aceita ou não as denúncias oferecidas pelo Ministério Público. Ontem, Manuel de Jesus, um dos advogados de Álvaro Lins, disse que ainda não tem conhecimento de todo o conteúdo do pen drive.

- Só tomei conhecimento de certas informações pela imprensa. Algumas delas, inclusive, serão usadas na defesa que será apresentada sexta-feira - disse o advogado.

Como a contabilidade está codificada, só agora os analistas da Polícia Federal estão concluindo a investigação. Eles descobriram, por exemplo, que a palavra "recanto azul", que aparece na listagem de obras filantrópicas, seria referente a batalhões da PM, enquanto a palavra "fixo" designaria delegacias. A cada código é associado um número, que seria correspondente ao batalhão ou a determinada delegacia.

A revelação dos supostos beneficiados e dos valores das propinas pagas pela máfia dos caça-níqueis repercutiu na polícia. Para o delegado Alexandre Neto, da Divisão Anti-Seqüestro e tido como inimigo de Álvaro Lins, ainda há muita coisa a ser revelada:

- Isso tudo comprova o conluio entre o governo do estado e a contravenção. Algumas informações só vieram à tona agora, apesar de já serem de conhecimento da Justiça há tempos. E acho que é apenas o começo, ainda há muito mais.

O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, não foi encontrado para comentar o assunto.

Outra especializada que chama atenção na lista é a Delegacia de Homicídios Oeste, cujos policiais receberiam R$7.500. A unidade é responsável pela apuração dos assassinatos em Campo Grande, onde Rogério e seu inimigo e concorrente Fernando de Miranda Iggnácio - genro de Castor de Andrade - disputam o domínio das máquinas de caça-níqueis.

Figuram ainda na lista de pagamento de propinas do bando o extinto Grupamento Especial Tático Móvel (Getam) e o Batalhão de Policiamento de Vias Especiais (BPVE).