Título: Estratégia para proteger o presidente
Autor: Beck, Martha; Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 09/06/2008, Economia, p. 16

Roberto Teixeira é tido como "compadre-problema" de Lula.

BRASÍLIA. Os articuladores políticos do governo, no Palácio do Planalto e no Congresso, desencadearam uma operação para proteger o presidente Luiz Inácio Lula da Silva das acusações feitas pela ex-diretora da Anac Denise Abreu de que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) fez pressão para aprovar a venda da Varig. A avaliação é que, ao citar no episódio o compadre do presidente, o advogado Roberto Teixeira, o principal alvo de Denise passou a ser Lula. Interlocutores do Planalto foram escalados para conversar com ela e com Teixeira, chamado em muitos gabinetes na Esplanada de "compadre-problema" e "amigo incômodo".

A ex-diretora da Anac disse que iria até o fim com as denúncias. Já o advogado-compadre mandou sinais ao governo de que não havia o que temer em relação a ele. Mesmo assim, a grande preocupação é com o depoimento de Teixeira, convidado a falar sobre o episódio na Comissão de Infra-Estrutura do Senado.

O governo já recebeu informações de que a oposição está fazendo um levantamento da relação do advogado com Lula, e que vai tentar fazer uma associação direta do presidente neste episódio. Mais de um ministro confirmou que não se pode considerar que a oposição vai tentar, apenas, enfraquecer Dilma.

Ao "Estado de S. Paulo", Denise disse que quem representava os compradores da VarigLog e da Varig era o escritório de Teixeira. Ela contou que a filha e o genro de Teixeira, os advogados Valeska Teixeira e Cristiano Martins, circulavam livremente na Anac, em "atuação truculenta, com pressão psicológica".

Não é raro chegar ao núcleo do governo relatos de que o compadre de Lula está atuando em negócios que dependem de decisões de várias esferas do governo, o que tem causado constrangimento em setores do Planalto. Segundo um auxiliar de Lula, Teixeira não é figura freqüente no Palácio, mas, sobretudo no primeiro mandato, tentava ser recebido por Lula. O presidente, muitas vezes, teria mandado barrar a entrada dele em seu gabinete.

- Ele ficava forçando a barra e tentava ir mais vezes ao Planalto - disse ao GLOBO uma fonte do governo. - Mas acabou virando um incômodo para o presidente. Lula é grato pela amizade e ajuda que recebeu de Teixeira. Por isso, não tem como zerar a relação.

Petistas contam que Lula tem gratidão pelo compadre que emprestou uma casa para a família Silva morar em São Bernardo, além de ter sido solidário nos piores momentos. Falam que Teixeira já era um advogado rico antes de Lula chegar à Presidência, mas reconhecem que ele se utiliza dessa relação para tentar abrir portas e oportunidades de negócios. E que, no primeiro governo de Lula, Teixeira tentou, sem sucesso, uma solução para a Transbrasil, empresa para quem prestou serviços.

No ano passado, o nome de Teixeira ressurgiu na esteira da CPI do Apagão Aéreo, quando foi citado pela oposição por seu envolvimento no setor. Ele foi criticado quando esteve no Planalto ao lado de Lula e do dono da Gol, Nenê Constantino, no acerto para a compra da Varig. O compadre sempre atribuiu os ataques a "ilações de invejosos".