Título: Vale deve fazer oferta pública de US$15 bi em ações
Autor: Rosa, Bruno ; Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 11/06/2008, Economia, p. 33
Para analistas, empresa está fazendo caixa para comprar mineradora estrangeira. Papéis caem até 4% na Bovespa
Bruno Rosa e Felipe Frisch
A Vale deu ontem novos sinais de que quer reforçar seu caixa para mais aquisições. A companhia anunciou que vai encaminhar ao seu Conselho de Administração uma proposta de oferta pública primária de ações ordinárias (ON, com direito a voto) e preferenciais da série A (PNA, sem direito a voto) de até US$15 bilhões na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Para analistas, com os recursos, a companhia pretende comprar o controle de outra mineradora. Entre as mais cotadas estão as americanas Freeport-McMoran e Alcoa.
Em dois dias - desde que começaram a circular os rumores de que a empresa negocia a compra de outra mineradora -, a Vale já perdeu R$16 bilhões em valor de mercado. Ontem, as ações preferenciais da série A (PNA, sem direito a voto) despencaram 4,04%, e as ordinárias (ON, com direito a voto) caíram 2,54%. As quedas arrastaram o Ibovespa, principal indicador da Bolsa, que caiu 2,17%, para 67.774 pontos. Já o dólar subiu 1,23%, para R$1,647, a maior alta desde 14 de março.
Com isso, o Ibovespa anulou os ganhos obtidos após a obtenção, pelo Brasil, do grau de investimento da agência Standard & Poor"s (S&P), em 30 de abril, quando fechou a 67.868 pontos. Depois, chegou a acumular ganhos de mais 8,32%.
No comunicado enviado à Bovespa, a Vale afirmou que, dependendo da demanda, o número de ações ofertadas pode aumentar. A maior produtora de minério de ferro do mundo disse na nota que o dinheiro captado pode ser usado para "fins corporativos gerais", como investimentos, aquisições e ampliação do caixa. A companhia garantiu, no entanto, que "no momento não mantém negociações para realização de aquisições estratégicas".
Segundo uma fonte envolvida no processo, a emissão de novas ações seria apenas um dos passos para comprar uma concorrente estrangeira. Analistas acreditam que a Vale deverá ainda recorrer a financiamentos em bancos. Outro especialista do setor lembrou que a companhia deverá desembolsar o US$1,5 bilhão obtido com a venda de sua parte na Usiminas.
- Emitir ações pode sair mais barato para o caixa da empresa do que contrair uma nova grande dívida - disse um analista.
Empresa deve investir US$1 bilhão na Malásia
A americana Freeport é hoje uma das principais produtoras de cobre, mesma matéria-prima em que a Vale estava interessada quando fez a fracassada proposta de compra da Xstrata. Do lado da Alcoa, o interesse seria pela produção de alumínio, produto cujo custo é alto no Brasil.
- A proposta de compra será rápida, três meses, no máximo. Diferentemente da Xstrata, a Vale, desta vez, está reforçando seu caixa para fazer uma oferta convincente. A emissão vai incluir mais ações preferenciais, até para o bloco de controle não ser afetado - disse uma fonte.
Ontem, a Vale, durante uma conferência em Cingapura, disse que a Malásia é o país que mais tem condições para abrigar uma planta de pelotização de minério de ferro, orçada em US$1 bilhão. Segundo Renato Hendriksen, gerente de marketing da empresa, a decisão seria tomada nos próximos dois anos; a construção levaria mais um ano.
Na Bovespa, o dia já havia começado tenso devido às declarações do secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, na véspera, dizendo que não descarta uma intervenção no câmbio, para fortalecer o dólar, segundo o economista-chefe da corretora Ágora, Álvaro Bandeira. Com o dólar mais forte, investidores deixam de se proteger em commodities como minério de ferro e petróleo, setores com forte peso na bolsa brasileira.