Título: Indefinição no PMDB favorece adversários
Autor: Tabak, Flávio
Fonte: O Globo, 16/06/2008, O País, p. 5

Para especialistas, rompimento com PT no Rio deve ajudar candidaturas de Crivella e Jandira

Flávio Tabak

Consolidado o rompimento da aliança entre PT e PMDB na corrida eleitoral carioca, surgem dois beneficiários diretos a partir do relançamento de Eduardo Paes como pré-candidato a prefeito do Rio. De acordo com especialistas, a caminhada do PT em direção à Jandira Feghali, como moeda de troca de um possível apoio PCdoB à Marta Suplicy, em São Paulo, pode fortalecer a campanha da comunista, ainda isolada no partido, com apoio apenas do nanico PTN. O pré-candidato Marcelo Crivella (PRB) também ganha horizonte com menos um nome para disputar a popularidade das obras do PAC e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dado o enfraquecimento de Alessandro Molon (PT).

A cientista política Lúcia Hipólito ressalta que os peemedebistas estão prejudicados com a inversão do processo político na cidade promovido por Lula. Segundo ela, a lógica do poder local que parte para a esfera federal foi transformada pelo presidente. Agora os partidos baseados nas cidades dependem da presença de Lula, que, com o Bolsa Família, implodiu as forças regionais.

- O presidente decidiu transformar as eleições 2008 num plebiscito sobre o governo dele. A política é local, se você transformá-la num plebiscito sobre o presidente, inverte a lógica. É um coronelismo federal. A volta do Paes favorece Jandira e Crivella, porque existe uma possibilidade de o PT nacional transformar o Rio em moeda de troca por articulação em São Paulo, com o apoio do PCdoB de lá à Marta Suplicy. Mas o Rio ainda depende de muitas variáveis. O quadro pode mudar muito até a última convenção.

PMDB fez "barbeiragem", diz especialista

Opinião semelhante tem a cientista política Marly Silva da Motta, do Cpdoc da Fundação Getúlio Vargas. Para ela, como o quadro eleitoral ainda está sujeito a alterações (o PMDB, por exemplo, pode escolher entre Eduardo Paes e o deputado federal Marcelo Itagiba), as perdas e ganhos com a última mudança podem ser passageiras.

- Não dá para dizer que a Jandira vai se beneficiar do enfraquecimento do Molon, porque ela é de um partido fraco. O Crivella, apesar de estar em primeiro lugar nas pesquisas, ainda enfrenta uma alta rejeição e também é de um partido fraco. O Paes pode ser prejudicado pelo PMDB, que é um partido muito autofágico, que engole seus membros mais novos. Além disso, o partido fez uma barbeiragem política, ao anunciar apoio do DEM, depois apresentar o Paes, em seguida apoiar o Molon e voltar agora ao Paes. Em política, às vezes esse tipo de indefinição não se perdoa.

O sociólogo Luiz Werneck Viana, do Iuperj, ressalta que essa eleição não tem um grande candidato, alguém que seja "capaz de mobilizar todos os segmentos". Por isso, diz ele, o pleito vai se caracterizar pela disputa de máquinas (federal, estadual e municipal), com dois candidatos performáticos (segundo ele, Fernando Gabeira e Chico Alencar) tentando se destacar.

- A Jandira, dependendo da articulação que faça, é poderosa. O PT não vai mover um dedo para que o Crivella perca. Esses dois é que saem fortalecidos com a candidatura de Paes, que tem contra si a desincompatibilização, além de não ter o apoio do Lula. A Solange também tem dificuldades, porque está isolada, com apoio apenas do Cesar Maia. O Gabeira ainda depende da capacidade de conseguir entrar nas comunidades.

Já o cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-RJ, aposta numa eleição das "mais disputadas e emocionantes do Brasil". Para ele, o enfraquecimento de Molon fortalece a candidatura de Crivella, que não vai mais precisar disputar com o petista as atenções de Lula.

Colaborou Cláudia Lamego