Título: O governo não vai articular, se meter
Autor: Lima, Maria; Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 13/06/2008, O País, p. 8

Lula diz que imposto é problema do Congresso

Chico de Gois e Gerson Camarotti

BRASÍLIA. Na tentativa de se descolar da impopular proposta de criação de um novo imposto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que o governo não está preocupado com a dificuldade que a base aliada deverá enfrentar no Senado para aprovar a Contribuição Social para a Saúde (CSS), a nova CPMF. Segundo Lula, a ratificação ou não pelos senadores da proposta aprovada anteontem na Câmara é um problema do Congresso.

- A CSS é uma criação do Congresso Nacional, o governo não participa de articulação. Os companheiros deputados e senadores que foram brigar pela área da saúde criaram a CSS e eu penso que agora vamos aguardar o resultado. O governo não vai articular, não vai se meter. É um problema do Congresso, e, sobretudo, da bancada de saúde - disse Lula.

Mas, desde ontem, articuladores do governo passaram a avaliar a conveniência de o Palácio do Planalto assumir publicamente a defesa da recriação da CPMF, com todo seu desgaste. Apesar da resistência pessoal de Lula, a coordenação política do governo considera que a única chance de aprovar no Senado a CSS é o governo se expor, mostrar a cara e negociar individualmente com os integrantes da base.

A decisão - se o governo vai ou não bancar o novo imposto - deve ser tomada no início da próxima semana, quando o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, retornar de viagem a Roma. Munido de informações dos líderes no Congresso, ele fará uma avaliação realista com o presidente sobre os destino da proposta. Ontem, um assessor do Planalto deixou claro que essa é a única chance de aprovar a CSS.

Essa discussão ganhou força depois que os governistas foram surpreendidos com a pequena margem de votos pró-CSS, na Câmara. Os coordenadores do governo acreditam que integrantes da base aproveitaram a votação impopular para expressar insatisfação, já que o Planalto demorou a liberar as emendas parlamentares.

O Planalto liberou em emendas parlamentares nos 10 primeiros dias de junho um valor total de R$280 milhões, como mostrou ontem O GLOBO. Só de novos empenhos deste ano o valor alcançou a marca de R$126,6 milhões. Foi um crescimento significativo, já que em todo o mês de maio os empenhos somaram apenas R$7,4 milhões. Por isso, lembra essa fonte, já que o governo está apanhando por trabalhar nos bastidores, então tem que fazer uma exibição pública de que deseja a CSS e trabalhar explicitamente por isso.

Será preciso trabalhar votos rebeldes e assumir o desgaste de defender a criação de novo imposto com uma alíquota de 0,1% nas movimentações financeiras, observou um ministro. Caso contrário, o Planalto corre forte risco de levar a fama e ainda perder feio no Senado.