Título: Armínio vê bobeada coletiva dos BCs
Autor: Duarte, Patrícia; D"Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 13/06/2008, Economia, p. 31

Ex-presidente do Banco Central elogia rigor da autoridade monetária no Brasil

Patrícia Duarte*

BRASÍLIA e LONDRES. O ex-presidente do BC Armínio Fraga fez ontem uma crítica aos bancos centrais (BCs) de todo o mundo ao subestimarem a intensidade das recentes altas dos preços de alimentos e petróleo. Para Armínio, foi uma "bobeada coletiva" das autoridade monetárias, que não atuaram com rigor e deixaram a inflação subir acreditando que se tratava apenas de um choque de oferta.

- A política dos BCs, sob o ponto de vista global, foi um pouco frouxa - afirmou Armínio em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara.

Armínio defendeu a atuação do BC brasileiro, que vem aumentando os juros para conter a escalada da inflação. Mas afirmou que, passado o pico da crise, a Selic - hoje em 12,25% ao ano - deveria cair bastante. Ele reconheceu, porém, que é necessária a redução dos gastos públicos. Para Armínio, deveria ser criado um mecanismo que atrelasse os gastos do governo ao desempenho do Produto Interno Bruto (PIB). Se o PIB crescesse 2%, por exemplo, os gastos poderiam avançar apenas 1%. Armínio disse ainda que o BC já está maduro o suficiente para ter a sua independência formalizada, mas não com autonomia total, como o Federal Reserve (Fed, o BC americano).

Ponderações semelhantes às de Armínio foram feita no início desta semana pelo jornal francês "Le Monde", que afirmou que o presidente do Fed, Ben Bernanke, deveria se mirar no exemplo do BC brasileiro no combate à inflação. E a revista inglesa "Economist" desta semana alerta para o dilema dos BCs: inflação ou recessão.

"Os BCs podem torcer para que a disparada nos preços de petróleo e alimentos seja apenas temporária e não tenha efeitos secundários, como reajuste salarial. Mas eles sabem que as expectativas de inflação maior, uma vez entrincheiradas, são difíceis de eliminar. (...) O temor dos investidores é que os BCs, no zelo de provar suas credenciais antiinflacionárias, inflijam um dano severo ao crescimento econômico".

Outro alerta veio do presidente do Morgan Stanley Asia, Stephen Roach. Em artigo no jornal inglês "Financial Times", ele diz temer uma estagflação como a dos anos 70, devido à inflação nos países asiáticos: "Dado o novo papel da Ásia como o produtor do mundo, uma epidemia de inflação alta na região terá sérios riscos para a economia global".