Título: Bancos projetam que inflação pode furar meta
Autor: Duarte, Patrícia; D"Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 13/06/2008, Economia, p. 31

Em reunião com Meirelles, quatro instituições prevêem IPCA acima de 6%. Ata do BC acena com juros maiores

Patrícia Duarte e Ronaldo D"Ercole

BRASÍLIA e SÃO PAULO. O Banco Central (BC) indicou, na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, que vai continuar elevando a taxa básica de juros, hoje em 12,25% ao ano, deixando portas abertas para acelerar o ritmo de altas, se necessário. No documento, a demanda aquecida e seu impacto sobre a inflação permanecem como os principais focos de pressão. Mas os analistas acompanham a avaliação de forma mais pessimista. Ontem, em uma reunião do presidente do BC, Henrique Meirelles, com o mercado, quatro grandes instituições disseram projetar inflação superior a 6% em 2008, com riscos de romper o teto da meta, de 6,5%.

"Na eventualidade de se verificar alteração no perfil de riscos que implique modificação do cenário prospectivo básico traçado para a inflação pelo Comitê neste momento, a estratégia de política monetária será prontamente adequada às circunstâncias", afirma trecho da ata do Copom. Foram dois encontros com economistas de diversos bancos e instituições em São Paulo. Além de Meirelles, estavam Mário Mesquita (Política Econômica) e Mário Torós (Política Monetária). A deterioração das expectativas está relacionada à divulgação, na quarta-feira, do IPCA de 0,79% em maio, o maior em 12 anos para o mês.

Segundo participantes do encontro ouvidos pelo GLOBO, pelo menos quatro instituições financeiras elevaram suas estimativas para o IPCA este ano para acima de 6%, sendo que uma delas já bateu no limite. A meta de inflação de 2008 e 2009 é de 4,5%, com margem de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Gasolina ficará estável, mas energia elétrica subirá 1,1%

Para o próximo ano, pelo menos por enquanto, as estimativas não foram contaminadas pelo novo cenário. No mercado, segundo a última pesquisa Focus, do BC, o IPCA de 2009 deve ficar em 4,60%.

- A ata veio meio branda, embora o IPCA esteja detonando revisões (de inflação) para 2008. Vamos ter de esperar o Relatório de Inflação para entender melhor o cenário - afirmou um economista que esteve em um dos encontros, referindo-se ao documento que o BC divulgará até o fim deste mês, com análises mais detalhadas sobre a economia.

Desde abril, a Selic foi elevada em um ponto percentual, para os atuais 12,25% ao ano. No mercado, a expectativa é que o BC continue elevando a taxa básica até o fim do ano - haverá mais quatro reuniões do Copom. Estima-se que os juros ficarão na casa dos 14%.

Segundo a ata, o BC corroborou as previsões. Além da demanda aquecida, incluiu os aumentos salariais e o preço dos alimentos como elementos de pressão. E deixou claro que, caso ache necessário, pode ter uma atuação ainda mais forte.

- O importante é que o BC tem o cenário dentro do esperado - afirmou o economista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, que aposta em mais um aumento de 0,5 ponto na Selic em julho.

Em audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara ontem, o diretor de Normas do BC, Alexandre Tombini, afirmou que as projeções mostram que a inflação está sob controle e deve ficar dentro da meta em 2008. E ressaltou que esse foi o objetivo da política monetária dos últimos dois meses:

- As perspectivas futuras, segundo consenso do mercado, são de uma inflação sob controle e consistente com as metas, a despeito dos choques recentes.

A ata ressalta que a expansão do crédito está perdendo fôlego e que o superávit primário será 0,5 ponto percentual maior este ano, o que contribui para segurar a expansão da demanda. O BC não mudou suas projeções sobre os preços da gasolina, que devem continuar estáveis em 2008 apesar da disparada do petróleo. Mas fez ajustes em outros preços administrados. Para a tarifa de energia elétrica, espera aumento médio de 1,1% em 2008, um ponto a mais do que o cálculo anterior.

Meirelles e os diretores mostraram-se tranqüilos nos encontros de ontem e pouco falaram. Mesquita, segundo os ouvintes, praticamente repetiu a ata do Copom, evitando falar sobre o IPCA de maio ou sobre o crescimento de 5,8% do PIB no primeiro trimestre.

Para ministro, ciclo de alta deve ir até o fim do ano

Em São Paulo, o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, disse ontem, no Congresso da Indústria 2008, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que o atual ciclo de alta dos juros deve se estender até o fim do ano. Segundo ele, este é um dos poucos instrumentos de que a área econômica dispõe para conter a aceleração da inflação.

Já o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, destacou a preocupação com a inflação:

- Há uma preocupação muito firme do presidente em impedir que a inflação escape de controle e em mobilizar as forças do governo para responder bem à questão da inflação, pelo lado da ampliação da oferta - afirmou, ressaltando que isso terá um preço. - É um sacrifício transitório, que tem um custo fiscal. Não podemos deixar a inflação escapar porque a principal vítima é o povo, e o povo está no coração do presidente.