Título: Gás na Bolsa e R$24 bi no bolso
Autor: Novo, Aguinaldo ; Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 14/06/2008, Economia, p. 29
Empresa de energia de Eike Batista sobe até 18% em sua estréia na Bovespa
Aguinaldo Novo e Juliana Rangel
Na maior oferta pública inicial já feita no Brasil (IPO, na sigla em inglês), as ações da companhia de petróleo OGX, do empresário Eike Batista, estrearam ontem na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e fecharam em alta de 8,31%, cotadas a R$1.225. Logo na abertura dos negócios, os papéis chegaram a subir 18,9% e alcançaram a cotação máxima do dia, de R$1.345. Ou seja, em menos de dez minutos, investidores que compraram o lote mínimo oferecido no período de reservas - de R$300 mil - e revenderam os papéis embolsaram lucro de R$56,7 mil. Com a entrada na Bolsa, a OGX passa a ter valor de mercado de R$38,682 bilhões. E Eike Batista, que tem 62,7% da empresa, aumenta sua fortuna em, pelo menos, R$24,25 bilhões.
- É como está aqui no manual do motor do Rolls-Royce: (fiquei mais rico) o suficiente - disse ele à tarde, por telefone ao GLOBO, em menção à montadora que, durante anos, se recusou a detalhar a capacidade de seus motores, dizendo apenas que a potência era "suficiente".
Na operação de ontem, a OGX captou R$6,7 bilhões, superando o volume de R$6,6 bilhões levantado na abertura de capital da Bovespa Holding, a maior do país até então. Eike poderia ter arrecadado ainda mais dinheiro. Segundo ele, a demanda total pelos papéis chegou a US$30 bilhões.
- Achava que a demanda poderia chegar a algo como US$20 bilhões, mas foi acima do que esperávamos - afirmou o empresário durante o evento que marcou o primeiro dia de negociação das ações na Bovespa.
Ao todo, foram ofertadas 5.934.273 ações ordinárias (ON, com direito a voto), ao preço inicial de R$1.131 cada, no teto da faixa sugerida pelo banco UBS Pactual, coordenador da operação. A empresa está listada no Novo Mercado, segmento da Bolsa que reúne empresas com práticas de gestão transparente e proteção ao acionista minoritário.
Volume negociado ultrapassa Petrobras
Criada há menos de um ano, a OGX arrematou no último leilão da Agência Nacional do Petróleo (ANP) concessões para explorar petróleo e gás em 21 blocos nas bacias de Campos (RJ) e Santos (SP), Espírito Santo e Pará-Maranhão. A empresa, que ainda não perfurou um poço sequer nas áreas, baseia-se em estudo de viabilidade da consultoria DeGolyer & MacNaughton, que aponta reservas prováveis de 4,835 bilhões de barris de óleo equivalente nos blocos e probabilidade média de sucesso de 27% nas descobertas. Eike disse que as primeiras avaliações para a exploração das áreas surpreenderam a companhia.
- Os volumes são muito maiores do que esperávamos - admitiu.
Em discurso na Bolsa, Eike afirmou que o grupo comandado por ele (o EBX, que, além da OGX, tem negócios nos setores de mineração, energia elétrica e logística) sofre do "complexo de Schumacher", uma referência ao piloto alemão Michael Schumacher, sete vezes campeão mundial de Fórmula 1.
- Queremos ser sempre o número um. Continuaremos a fazer coisas grandes.
O empresário contou que pretende criar uma nova empresa na área de construção naval, cuja principal tarefa seria suprir a demanda futura da própria OGX. Para tanto, ele procura fechar parcerias com a americana Dynamics e a dinamarquesa Maersk.
- Três locais estão sendo estudados (para a instalação de estaleiros). Devemos escolher dois - afirmou Batista, acrescentando que as negociações com os parceiros estrangeiros estariam já na reta final.
Com forte procura de investidores estrangeiros, o volume de negociação dos papéis ficou em R$2,541 bilhões, mais que o dobro do R$1,046 bilhão registrado pelas ações preferenciais (PN) da Petrobras, as mais líquidas da Bolsa.
O gerente de análises do Modal Asset, Eduardo Roche, diz que os investidores vêem na OGX uma porta de entrada no setor de petróleo no Brasil, alternativa à Petrobras:
- É uma empresa privada, com boas regras de governança, e chama a atenção neste momento em que o Brasil se mostra com um potencial enorme em termos de descobertas - avaliou.
Para outro analista do setor, o investimento só se justifica por causa da "marca" Eike Batista.
- A empresa, por enquanto, não é nada. Existem apenas expectativas de projetos. O movimento de compra se deu mais pelo nome do Eike que pela OGX, que ainda é um balão de ensaio - disse.