Título: Deputados foram avisados por seus assessores da devassa nos gabinetes
Autor: Braga, Isabel; Lima, Maria
Fonte: O Globo, 21/06/2008, O País, p. 5

ATAQUE AOS COFRES PÚBLICOS: Revoltados, deputados se dizem inocentes

Magalhães, envolvido com sanguessugas, se diz vítima de denuncismo

BRASÍLIA. Surpreendidos pela Operação João de Barro, os deputados João Magalhães (PMDB-MG) e Ademir Camilo (PDT-MG) foram tirados da cama de madrugada com telefonema de assessores avisando que policiais federais fariam devassas em seus gabinetes, com autorização da Procuradoria Geral da República. Os policiais chegaram de madrugada no apartamento dos dois deputados, que estavam em Minas Gerais. João Magalhães já responde a processo no Supremo Tribunal Federal por envolvimento com a máfia dos sanguessugas, que superfaturava compra de ambulâncias. Dos mais de 30 deputados envolvidos no escândalo, Magalhães foi o único reeleito.

Por volta das 8h30m, os policiais federais chegaram aos gabinetes na Câmara em busca de documentos que comprovassem a suposta participação dos deputados na quadrilha que vem desviando recursos de obras de habitação e saneamento. Camilo e Magalhães se mostraram revoltados com o envolvimento de seus nomes. Com o mesmo discurso, alegaram que são inocentes e que quem decide a liberação de recursos do PAC é o governo federal.

- Adversários a gente tem para todo lado. Os inimigos é que patrocinam esse denuncismo contra mim. Meu advogado foi ao Supremo em busca do inquérito, mas o ministro César Peluso tinha viajado. Não sei por que estão me investigando - disse Magalhães.

"A gente não tem emenda do PAC"

Ademir Camilo negou envolvimento no esquema e disse que, em Teófilo Otoni, sua base eleitoral, foi a prefeitura que solicitou, por três vezes, a liberação de recursos do programa - de cerca de R$10 milhões -, mas o dinheiro não saiu. Ele enfatizou que a prefeita Maria José Hauseisen Freire é petista.

- Na minha cidade, sou adversário da prefeita, que é amiga do presidente Lula. Ela solicitou recursos do PAC, que não saíram. O que existe é um empenho no Ministério das Cidades. Todos sabem que os recursos do PAC foram decididos dentro da Casa Civil. Nunca tive contato com a ministra Dilma. A gente não tem emenda do PAC. Só estivemos juntos no lançamento do PAC Minas, em Belo Horizonte.

Numa espécie de malote, que saiu abarrotado do gabinete de João Magalhães, os policiais levaram ofícios solicitando liberação de recursos para as prefeituras, ofícios comunicando aos prefeitos as liberações, notas de empenho e dados de inadimplência dos municípios.

- Que mal há em a gente acompanhar o dia-a-dia das liberações para ajudar os prefeitos? Acho que foi um grave precedente. Ali é o nosso local de trabalho. A Câmara (o presidente Arlindo Chinaglia) não deveria ter autorizado de jeito nenhum. Desse jeito, daqui a pouco nenhum poder será respeitado. A Câmara vai mandar invadir o Supremo, e o Supremo, o Planalto. Se fosse a minha casa tudo bem, mas meu gabinete na Câmara não podia.

Camilo contou que, no lançamento das obras do PAC, ele e outros deputados fizeram uma audiência pública na Câmara e chamaram a prefeita de Teófilo Otoni e o de Vespasiano. No caso de Vespasiano, disse que houve liberação de R$50 milhões, mas que o prefeito disse a ele que as obras não começaram porque o primeiro colocado na licitação fora desclassificado.

Segundo Camilo, a PF levou de seu gabinete HDs dos computadores e todos os ofícios com pedidos de emendas que ele fez para os ministérios. O deputado disse estar ansioso, por não saber do que está sendo acusado.

- Primeiro fazem a busca, depois te dizem o motivo. Tanto eu quanto João Magalhães somos deputados das regiões mais pobres de Minas Gerais: o Vale do Mucuri e do Jequitinhonha. Isso faz com que a gente corra atrás de recursos para a região, peça ao Lula, faça ofícios aos ministérios.

Cassação sequer foi votada

No escândalo anterior em que João Magalhães foi envolvido, em 2006, Darci Vedoin, dono da Planam, empresa que centralizou a máfia dos sanguessugas, disse ter feito com ele um acordo pelo qual o deputado receberia 10% do valor das emendas de sua autoria que fossem executadas. Darci Vedoin afirmou que o parlamentar liberou R$350 mil para aquisição de unidade móvel de informática e teria recebido R$42 mil de Luiz Antônio Vedoin, filho de Darci. O processo de cassação de Magalhães não foi sequer votado no Conselho de Ética.