Título: Dilma Rousseff admite ter recebido amigo de Lula para tratar da Varig
Autor: Gois, Chico de ; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 25/06/2008, Economia, p. 24

Assessoria da ministra havia negado encontro com advogado Roberto Teixeira

Chico de Gois, Luiza Damé e Adauri Antunes Barbosa

BRASÍLIA e SÃO PAULO. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, admitiu ontem ter recebido o advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em duas ocasiões, para tratar da venda da Varig. Em pelo menos uma, Teixeira estava acompanhado da filha Valeska, que participou das discussões. Mais cedo, a assessoria de Dilma negara que ela e Teixeira tivessem se reunido no gabinete. Depois, confrontada com a versão, Dilma argumentou que a audiência não ocorreu em seu gabinete, mas em uma sala de reunião.

A Casa Civil é acusada pela ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu de ter interferido para que a venda da VarigLog ao fundo americano Matlin Patterson fosse aprovada em tempo recorde, a fim de que a companhia de carga pudesse entrar no leilão da nova Varig (linhas comerciais). O serviço de advocacia rendeu a Teixeira cerca de US$5 milhões.

A ministra afirmou não ter se encontrado com advogados de qualquer outro grupo interessado na aérea, mas recebeu os então presidentes de TAM e Gol.

- Eu acho que tem uma tentativa, mais uma vez, de escandalizar o nada. Se você olhar minha agenda de audiência, abrange uma quantidade muito grande de pessoas, empresários, setores da sociedade. Não vejo (nada de irregular), a não ser que alguém queira criminalizar o nada.

Questionada sobre o motivo da audiência com Teixeira e Valeska, afilhada de Lula, Dilma respondeu que ambos foram tratar da venda da VarigLog:

- Eles vieram tratar, basicamente, naquela época, que foi bem no início do processo, da questão relativa aos leilões da Varig. Agora eu acho que há essa escandalização do nada.

DEM: Teixeira teve sucesso em missão impossível

A ministra minimizou o fato de as reuniões não terem sido anotadas em sua agenda.

- Minha agenda não é uma ficção pública. É, em alguns momentos, uma impossibilidade. Porque eu tenho, às vezes, três encontros na mesma hora. Atendo, em média, quase 12 horas por dia - argumentou Dilma. - Eu participei bastante pouco do processo da Varig. A Casa Civil é especializada em resolver problemas.

Ela confirmou ainda que o governo não tinha interesse na falência da Varig.

A admissão dos encontros é uma ação preventiva do Palácio do Planalto, que também assumiu, em reportagem publicada ontem na "Folha de S.Paulo", que Teixeira foi recebido por Lula seis vezes desde 2006. A idéia é blindar o presidente.

- É preciso deixar claro que o presidente Lula e o advogado Roberto Teixeira são compadres, amigos de longa data. É preciso ver isso com naturalidade. Agora, isso nunca interferiu numa decisão de governo - disse o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro.

Ontem, a oposição atacou duramente o fato de Lula ter recebido Teixeira durante a negociação da venda da Varig.

- Só um advogado com relações muito privilegiadas com o gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto é que poderia ter conseguido sucesso numa missão praticamente impossível, que foi o caso da venda da Varig. Esses encontros entre o presidente Lula e o compadre Roberto Teixeira são as digitais dessa missão impossível - afirmou o líder do DEM, senador José Agripino Maia (RN).

O ex-sócio do Matlin Patterson na VarigLog Marco Antonio Audi afirmou ontem que a empresa só não perderá a concessão se Teixeira intervier:

- A Anac vai suspender a VarigLog, a não ser que o Roberto Teixeira faça chover de novo. Ele é infiel. E fui eu quem o trouxe para a Varig.

Audi garante que Teixeira nunca lhe falou de reuniões com Lula ou Dilma, mas que usaria o nome dos dois em seus contatos. Audi prestou depoimento, em São Paulo, em processo sobre sonegação fiscal, sem ligação a caso VarigLog.

COLABOROU Gerson Camarotti