Título: Queda global, perda local
Autor: Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 21/06/2008, Economia, p. 33
Bovespa cai 2,97% e quase anula ganhos no ano.
ABolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) não resistiu às pressões do mercado internacional ontem. Seu principal índice, o Ibovespa, recuou 2,97%, para 64.613 pontos - a menor cotação desde a véspera da concessão do grau de investimento ao Brasil pela Standard&Poor"s, em 30 de abril. O indicador, que chegou a subir mais de 15% no ano, praticamente anulou seus ganhos em 2008: a alta agora é de apenas 1,13%. No acumulado da semana, o índice perdeu 3,85%. Já o dólar subiu 0,19%, para R$1,607. O risco-país fechou em 197 pontos centesimais, com alta de 3,68%.
Os mercados internacionais foram afetados ontem por preocupações com a inflação - caso da Índia -, com a alta do petróleo e com a crise nos mercados de crédito - caso dos Estados Unidos. Em Nova York, o índice Dow Jones recuou 1,83%, para 11.842 pontos, seu menor nível em três meses. Na semana, a queda foi de 3,8%. O S&P 500 caiu ontem 1,85% e o Nasdaq, 2,27%.
Apesar de a crise do crédito se arrastar há um ano, parece estar longe de acabar. Morgan Stanley e Goldman Sachs divulgaram queda no lucro trimestral esta semana, e o Citigroup alertou que fará mais baixas contábeis. Ontem, circularam rumores de que o banco de investimentos Merrill Lynch faria o mesmo.
Montadoras e petróleo afetam mercados
Enquanto isso, o Merrill reduziu ontem sua recomendação relativa a vários bancos regionais, enquanto a agência de classificação de risco Moody"s rebaixou a nota das securitizadoras de títulos Ambac e MBIA - ambas com grande exposição em títulos lastreados em hipotecas de alto risco (subprime). Os papéis da MBIA caíram 13%, enquanto a Ambac encerrou em alta de 0,99%.
Um acionista entrou com um processo contra o banco de investimentos Lehman Brothers e sua diretoria acusando-os de ter enganado os investidores quanto à exposição da instituição financeira ao subprime. Semana passada, o Lehman divulgou um prejuízo trimestral de US$2,8 bilhões. Suas ações já caíram 60% este ano. A ação, apresentada pelo fundo de investimentos Operative Plasterers, menciona o diretor-executivo do banco, Richard Fuld, e os ex-diretores Joseph Gregory e Erin Callan, que deixaram seus cargos semana passada.
Já a S&P informou ter colocado em perspectiva negativa seus ratings para as três grandes montadoras americanas: Ford, General Motors e Chrysler. Isso significa que as empresas podem ser rebaixadas dentro dos próximos três meses. A S&P afirmou em nota que as vendas das montadoras continuarão declinando em 2009, devido à "deterioração das condições da indústria nos Estados Unidos". Os papéis da GM caíram 6,76%, e os da Ford, 8%. A Chrysler não é uma empresa de capital aberto.
Ontem, a Ford informou que vai adiar o lançamento da versão 2009 da picape F-150, devido às fracas vendas de veículos utilitários. Além disso, vai reduzir sua produção de picapes em 90 mil veículos no segundo semestre. A montadora ainda alertou que deve fechar 2008 com prejuízo, pelo quarto ano consecutivo.
- Os investidores continuam a perder a confiança na economia - disse à Bloomberg News James W. Gaul, administrador de recursos da Boston Advisors. - A idéia de que possamos fechar o ano em alta parece estar saindo pela janela agora.
As bolsas européias foram afetadas pelos rumores sobre o Merrill Lynch. Londres, Paris e Frankfurt fecharam em baixa. Os papéis do setor financeiro também recuaram, devido à perspectiva de lucros menores. O suíço UBS teve queda de 3,3% e o Deutsche Bank, 3,1%. O UBS deve anunciar uma baixa contábil de US$5,5 bilhões no segundo trimestre, e o Deutsche, de US$3 bilhões, segundo estimativas de analistas.
A nova alta do petróleo, em torno de 2%, também pesou no ânimo dos investidores. O barril do tipo leve americano ficou a US$134,62 e o do Brent, a US$134,86. As cotações da commodity, que haviam recuado na quinta-feira com o reajuste dos combustíveis na China, voltaram a subir ontem por conflitos no Oriente Médio. Além disso, analistas temem que a alta dos preços não seja capaz de conter a demanda chinesa por combustível. Consumidores ouvidos pela agência de notícias AP em Pequim afirmaram que o preço da gasolina ainda cabe no bolso. Lá o galão (3,78 litros) custa cerca de US$3,65, contra US$4 nos Estados Unidos.
"Não esperem uma queda imediata nas importações de petróleo da China - o efeito do preço da demanda também vai funcionar na China, mas ainda vai levar algum tempo", afirmou em relatório divulgado ontem Wang Tao, economista do UBS Securities.
Bolsa de SP é alvo de notícias ruins
Na Bovespa, a alta dos preços do petróleo segurou, durante boa parte do dia, as ações da Petrobras.
- Mas quando o preço começou a cair lá fora e a situação foi se agravando nos mercados, a ação não resistiu. As preferenciais (PN, sem direito a voto) fecharam em queda de 1,75% - explicou Álvaro Bandeira, diretor da corretora Ágora.
As ações da Vale também foram destaque na bolsa paulista. Os papéis PN da mineradora perderam 4%.
De acordo com o analista Leonel Pitta, da Lopes Filho & Associados, houve forte saída de investidores externos da Bovespa. Por isso, as ações de Petrobras e Vale, com maior liquidez, são as mais afetadas quando eles precisam deixar a Bolsa para cobrir rombos no exterior. Os papéis ordinários (ON, com direito a voto) das empresas, os mais comprados pelos estrangeiros, caíram 1,85% e 4,5%, respectivamente.
- O mercado reviveu nesta semana uma enxurrada de notícias negativas sobre empresas do setor estrangeiro. E a Bovespa, especificamente, foi alvo de duas divulgações ruins: o rebaixamento da recomendação do JPMorgan para exposição ao país (em relatório enviado a clientes na quarta-feira) e uma pesquisa do Merrill Lynch indicando a redução do entusiasmo de seus gerentes regionais com os mercados emergentes, por eles estarem supervalorizados - disse Pitta.
Outro agravante para a queda das ações da Vale, explicou, foram as declarações do presidente da empresa, Roger Agnelli, sobre os investimentos da companhia.
- O cronograma inicial da Vale previa investimentos de US$59 bilhões até 2012. Mas a expectativa agora é que esse volume poderá chegar a US$63 bilhões - disse Pitta.
Ações da Gol e da TAM também tiveram desempenho ruim. No dia anterior, após o fechamento do mercado, a agência classificadora de risco Fitch reduziu a nota da Gol e indicou que poderá fazer novos rebaixamentos da empresa e da TAM. Seus papéis PN recuaram 6,92% e 3,49%, respectivamente.
(*) Com Bloomberg News e agências internacionais