Título: Cieps estão entre as piores escolas do Rio
Autor: Soares, Natália; Berta, Ruben
Fonte: O Globo, 22/06/2008, O País, p. 16

Sete Centros Integrados de Educação Pública, que já foram modelo no estado, tiveram as notas mais baixas no Ideb.

O desempenho dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps) no ranking no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), está longe da excelência de ensino idealizada pelo educador Darcy Ribeiro. Das 20 piores escolas de 4ªsérie do Estado do Rio, sete são Cieps da rede estadual. O Ciep Professora Carmem Sylvia Carneiro, de Campos, foi a terceira pior escola do estado, com média de 1,6 em 2007.

Os demais são os Cieps Cecília Meireles, em Petrópolis, em 5º lugar; Nelson Cavaquinho, em Mesquita, na Baixada Fluminense, em 7º; o Galileu Galilei e o Maria Alves de Souza Vieira, ambos em Belford Roxo, respectivamente em 10º e 14º no ranking; o Cyrene Moraes Costa, em Japeri, no 15º lugar; e o Pedro Américo, de Magé, na 17ª colocação.

Falta de continuidade afetou projeto, dizem educadores

Segundo educadores, a proposta inovadora foi prejudicada pela falta de continuidade das políticas públicas. Outro fator que teria contribuído para a queda no desempenho, dizem os especialistas, seria o custo elevado para manter as escolas no padrão ideal.

- A proposta inicial acabou. Apenas os prédios continuam existindo, mas abrigando dois, às vezes três turnos, no lugar do horário integral, que era o ponto fundamental do projeto - lamenta Laurinda Barbosa, da Fundação Darcy Ribeiro, que trabalhou na implantação dos Cieps no governo de Leonel Brizola. - Hoje, os Cieps são escolas comuns, que sofrem dos mesmos problemas e deficiências, como qualquer outra.

Inspirado no Centro Popular de Educação Carneiro Ribeiro - mais conhecido como Escola Parque, projeto-piloto de horário integral do educador Anísio Teixeira na década de 50, na Bahia -, os Cieps se transformaram numa das grandes bandeiras de Leonel Brizola, que inaugurou em dois governos (1983-1986 e 1991-1994) 515 prédios, cuja concepção arquitetônica foi de Oscar Niemeyer.

Para a professora da Faculdade de Educação da Uerj Bertha do Valle, a implantação do modelo dos Cieps foi falha desde o início.

- Os Cieps continuam sendo um grande projeto. Mas, como o resto da educação no Estado do Rio, ele sofre com o problema da descontinuidade das políticas públicas - afirmou. - No fim da primeira gestão do Brizola, ele já tinha começado a ser alterado.

Para o ex-secretário estadual de Educação Arnaldo Niskier, os Cieps foram implantados de forma muito rápida.

- Em determinado momento, a meta era construir 500 prédios, e eles foram construídos. Houve uma avalanche, que o sistema não suportou, pois eles demandam um grande investimento em pessoal, professores e infra-estrutura - disse. - Continuo acreditando no projeto dos Cieps, mas eles sozinhos não fazem milagres. É preciso pensar em uma política educacional.

A primeira escola, Tancredo Neves, no Catete, foi inaugurada em 8 de maio de 1985. Apelidados de Brizolões, representaram uma novidade no cenário educacional do Rio. No projeto original, funcionavam em horário integral, das 8h às 17h, oferecendo quatro refeições diárias (café, almoço, lanche e jantar) e atividades curriculares e paralelas. Os alunos recebiam o uniforme e todo o material didático, além de contarem também com assistência médica e dentária, quadra de esportes e biblioteca.

Hoje em dia, a realidade parece outra. Nem o Ciep Darcy Ribeiro, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, escapou do mau desempenho. A escola, que atende ao primeiro segmento do ensino fundamental, teve queda na nota do Ideb, de 4,1 para 3,9 entre 2005 e 2007. O índice está abaixo da meta projetada pelo MEC, de 4,2. O Ciep Leonel Brizola, em Ramos, passou raspando: pulou de 4 para 4,2 na 4ª série. A meta estipulada pelo MEC foi de 4,1. Já o Tancredo Neves manteve os 4,3 de 2005 na 4ª série, 0,1 abaixo da meta do MEC.

Para o subsecretário estadual de Planejamento da Educação, Rafael Martinez, a média obtida pelos Cieps no ranking do Ideb não pode ser encarada como um sinal da falência do projeto. Ele afirma que a secretaria vai estudar os dados para analisar quais são os problemas das unidades.

- O ranking não é uma prova sobre a eficiência do modelo dos Cieps. O dado serve como indicador, e a secretaria vai averiguar in loco as condições destas escolas, mas é preciso pesquisar o contexto no qual elas foram instaladas para se tirar uma conclusão.

O subsecretário admite que a falta de continuidade das políticas públicas é o principal problema enfrentado pela rede pública de ensino.

- Nos últimos 12 anos, foram 11 secretários de educação.O Ciep nunca foi implementado em 100% da sua concepção original. Ao longo do tempo, viu-se que o que se pratica hoje não é mais o modelo original.