Título: Incerteza afasta investimento externo
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 22/06/2008, Economia, p. 35

Para ex-presidente do BC argentino Mario Blejer, competitividade depende de recursos estrangeiros

BUENOS AIRES. Na visão do economista e ex-presidente do Banco Central da Argentina Mario Blejer, depois de ter conseguido superar a grave crise econômica, política e social de 2001, o país não foi capaz de construir um modelo genuinamente competitivo, em grande medida, pela falta de investimentos estrangeiros. Hoje, diz Blejer, a Argentina está em 5º lugar no ranking de captação de investimentos estrangeiros dos países latino-americanos, empatada com o Peru. "Até hoje continuamos sem ter regras de jogo claras. São variáveis, incertas", afirma Blejer.

A Argentina mergulhou em outra crise...

MARIO BLEJER: É impossível explicar o que está acontecendo hoje, sem voltar à origem desta situação, que é a crise de 2001 e 2002. O país perdeu cerca de 22% de seu Produto Interno Bruto (conjunto de bens e serviços produzidos no país). O ano de 2002 foi de estagnação, o crescimento começou a ser sentido somente em 2003, quando conseguimos estabilizar o câmbio (em março de 2002, o dólar chegou a bater 4 pesos).

E quanto à inflação?

BLEJER: Aconteceram três coisas. Primeiro, o país conseguiu alcançar um inédito superávit fiscal. As chamadas retenções (tributos cobrados aos exportadores) foram importantes para isso. O governo também conseguiu evitar que a desvalorização provocasse hiperinflação. Os preços subiram em torno de 40%, mas poderiam ter aumentado 200%, e isso não aconteceu. E os preços dos produtos exportados pela Argentina aumentaram no mercado internacional. Conseguimos superar a crise e normalizamos a situação da dívida.

O modelo construído para sair da crise era sustentável?

BLEJER: O que tivemos foi uma competitividade de transição. Nossa economia era competitiva graças ao mercado internacional, ao dólar alto, aos salários baixos e subsídios. Os custos de produção na Argentina eram muito competitivos. Essa competitividade claramente não era sustentável a médio e longo prazos, mas foi a base do forte crescimento entre 2003 e 2007.

Podemos falar num efêmero milagre argentino?

BLEJER: (risos) Não. Tivemos quatro anos de crescimento acelerado, sem problemas sérios de financiamento. Isso permitiu-nos manter certo equilíbrio interno e externo. Mas como não recebemos suficiente investimento, não passamos de uma competitividade de transição a uma competitividade genuína. Um país, para ser competitivo, precisa de novas tecnologias, maior produtividade, melhor infra-estrutura e grandes investimentos públicos e privados.

O problema essencial da Argentina é econômico ou político?

BLEJER: Todos os países, para crescerem, precisam de investimento local e externo, até mesmo os mais desenvolvidos. Em nossa região, os que mais captam investimentos são Brasil, México e Chile. Até mesmo a Colômbia está acima da Argentina, e o Peru está empatado com nosso país. Um dos principais impedimentos para receber novos investimentos estrangeiros é a incerteza que nosso país desperta no mundo.

Kirchner representa, então, grande parte do problema?

BLEJER: O que Kirchner fez no início de seu governo foi construir credibilidade interna, o que era fundamental para garantir a governabilidade. O problema é que até hoje continuamos sem ter regras de jogo claras. Nossa competitividade de transição foi se esgotando. Com este cenário, o que o governo fez foi manter o dólar alto, aumentar os subsídios, congelar tarifas e consolidar um superávit fiscal também alto. A opção escolhida pelo governo provocou expressivo aumento do gasto público. Assim surgiu a rebelião do campo, um dos setores mais tributados do país. Não temos financiamento externo, porque a Argentina transmite uma imagem problemática.

O eixo do problema é a falta de investimentos?

BLEJER: Sim, a falta de investimentos de qualidade.

Existe risco de recessão?

BLEJER: A inflação e a falta de investimentos podem criar problemas sérios. Mas os bancos estão líquidos, o Banco Central tem reservas, não podemos pensar numa crise financeira. Este ano ainda não vejo risco de recessão, mas, se não conseguirmos construir um marco social e político que afaste as incertezas e, ao mesmo tempo, aplicar uma política antiinflacionária consistente, o país não receberá investimentos, e poderíamos ter um esfriamento da economia. (Janaína Figueiredo, correspondente)