Título: Modelo econômico, a raiz do problema
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 22/06/2008, Economia, p. 35
Na era Kirchner, estatização ampliou gasto público e controle de preços não segurou inflação
Janaína Figueiredo
BUENOS AIRES. Quando o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) chegou ao poder, em maio de 2003, a maioria dos analistas econômicos do país se perguntou qual seria o modelo a ser adotado pelo novo homem forte da Argentina. Depois de governar durante 11 anos a província de Santa Cruz, na Patagônia, o pingüim, como gosta de ser chamado, desembarcou na Casa Rosada num momento em que o país começava a superar a profunda crise econômica e financeira de 2001 e 2002.
Em pouco tempo, a incógnita foi revelada: Kirchner optou por um modelo heterodoxo, de fortíssima intervenção estatal na economia por meio de políticas de controle de preços, reestatização de empresas, subsídios a setores como energia e transporte e alianças com empresários nacionais, que, pouco a pouco, foram comprando participações em empresas emblemáticas, como Aerolíneas Argentinas e Repsol-YPF.
Governo deverá gastar US$8 bi em 2008
O modelo econômico K provocou um aumento gigantesco do gasto público, que entre 2002 e 2007 passou de 48 bilhões de pesos para 155 bilhões de pesos (cerca de US$51 bilhões, considerando um câmbio de 3,05 pesos). No ano passado, o Estado argentino gastou 14,6 bilhões de pesos em subsídios. Segundo previsões da consultoria Abeceb.com, comandada pelo ex-secretário da Indústria Dante Sica, este ano o montante será de até 25 bilhões de pesos (US$8,2 bilhões).
- O modelo K mostrou ser ineficiente. Os subsídios à energia, por exemplo, beneficiam setores que poderiam pagar tarifas mais altas e não favorecem os pobres - disse Sica.
Segundo ele, "com sua política de subsídios, o governo deu impulso à demanda de serviços, mas não incentivou a oferta". As empresas não estão investindo, por exemplo, para satisfazer uma demanda crescente por energia. Por isso, diz, "corremos, mais uma vez, o risco de sofrer uma crise energética".
A política de controle de preços é considerada outro erro colossal do casal Néstor e Cristina Kirchner. Hoje, a inflação real, calculada por empresas de consultoria locais, supera 25% ao ano. - No começo, o governo conseguiu conter o aumento de alguns preços, mas essa política terminou gerando mais expectativa de inflação. A Argentina não conseguiu construir uma política sólida de controle da inflação - explicou o diretor do Abeceb.com.
Para o economista Ignacio Chojo Ortíz, diretor do Relatório Econômico do Conselho Profissional de Ciências Econômicas de Buenos Aires, entre 2003 e 2005, as políticas de estímulo à demanda ajudaram a gerar um crescimento sustentável, sem provocar pressões inflacionárias. Mas, desde 2006, "essa política teve efeitos inflacionários crescentes".
- O principal problema é que o governo não reconhece a existência de um problema inflacionário e, portanto, não aplica um programa para combatê-lo - disse Ortíz.
Este ano, as companhias áreas receberão em torno de 120 milhões de pesos (US$39,4 milhões) em subsídios, para compensar o aumento no preço dos combustíveis. Após anos de tarifas congeladas, as passagens foram reajustadas em 40%, pouco depois de um empresário local, próximo ao casal Kirchner, ter assumido a Aerolíneas Argentinas.
- Enquanto a empresa estava em mãos de um grupo espanhol, o governo vetou o reajuste de tarifas - lembrou Sica.
Estatização beneficiou empresários amigos
Durante os primeiros cinco anos de poder do casal K, o governo também reestatizou importantes empresas, como o Correio, até então nas mãos do grupo Macri, e a Aguas Argentinas, antes controlada pela francesa Suez. Hoje, a Casa Rosada exibe com orgulho a Aguas y Saneamientos Argentinos (Aysa), símbolo do processo de reestatização de empresas privatizadas nos anos 90. Kirchner também criou a companhia petrolífera Enarsa, cuja principal parceira é a Petróleos da Venezuela (PDVSA).
- Em governos como os de Kirchner, utiliza-se uma retórica contra o mercado, mas, na prática, o que fazem é ampliar seu caixa, entre outros objetivos, para sustentar empresários amigos - disse o historiador José Ignácio Garcia Hamilton, para quem "é uma pena que um país rico em petróleo e um dos principais produtores de alimentos do mundo não consiga construir um modelo sólido de crescimento".
A menos de 50 quilômetros da Casa Rosada, o modelo K não faz sucesso. Em Quilmes, na Grande Buenos Aires, centenas de pessoas se alimentam graças aos refeitórios da rede de ajuda social Cáritas.
- Para nós, a pobreza não diminui, as necessidades são cada vez maiores - comentou Daniel Diaz, voluntário da Cáritas que construiu um refeitório em sua própria casa.
Como a maioria dos moradores do Bairro del Carmem, Zona Oeste de Quilmes, ele não tem rede de gás em casa. E, não raro, o jantar é suspenso por falta de água e luz.