Título: Duas versões diferentes para uma morte
Autor: Werneck, Antônio
Fonte: O Globo, 30/06/2008, Rio, p. 8
PM que matou rapaz alega legítima defesa; família afirma que tiro foi pelas costas
Versões conflitantes do assassinato do estudante Daniel Duque, de 18 anos, marcaram os depoimentos prestados por nove testemunhas aos policiais da 14ª DP( Leblon). O PM, lotado no Ministério Público Estadual e que prestava segurança ao filho da promotora Márcia Velaco, afirmou ter agido em legítima defesa e que o tiro foi acidental. A família de Daniel diz que o jovem foi morto com um tiro à queima-roupa e pelas costas e, quando já estava ferido caído no chão, foi agredido com socos e pontapés. O engenheiro Sérgio Coelho, padrasto de Daniel, disse que o enteado foi atingido quando corria do tumulto. Segundo Daniela Duque, mãe do rapaz, ele morreu no local.
¿ O Daniel foi brutalmente agredido com pontapés no rosto. Ele caiu no chão, depois levantou. Quando tentava correr foi atingido pelas costas, na altura do omoplata. Foi uma covardia ¿ disse Sérgio.
Depoimento de acusado fala em tiro acidental
A família não se conforma com a versão de legítima defesa.
¿ É muito bonito chamar alguém para briga e se esconder atrás de um PM armado. Se o policial estava protegendo a família da promotora ameaçada, por que ele estava numa boate àquela hora? Como um PM diz que agiu em legítima defesa quando apenas ele estava armado? ¿ disse Daniela, mãe da vítima.
Na versão apresentada pelo PM à 14ª DP, à qual O GLOBO teve acesso, ele alegou legítima defesa, afirmando ainda que o tiro foi acidental. Parreira disse que na sexta-feira assumiu o serviço às 15h, chamado pelo filho da promotora. O policial contou que na madrugada de sábado entraram na boate Baronetti, após passarem pela boate Box, que fica ao lado. O PM disse ainda que, com o filho da promotora, estava o jogador de futebol Diguinho, do Botafogo. Segundo o PM, o grupo deixou a boate às 5h30m. Foi nesse instante, diz o PM, que um dos amigos do filho da promotora se envolveu numa confusão e pediu ajuda, alegando que um grupo de 12 rapazes queria agredi-lo. O policial afirmou ter sido cercado e ameaçado. Ele disse que, nesse momento, fez dois disparos para o alto com uma pistola Taurus calibre 380. O PM alega que o terceiro tiro foi acidental e para o chão.
O estudante Gustavo Neves, amigo de Daniel, disse que aconteceu uma discussão com um dos seguranças da casa noturna dentro da boate. Gustavo afirmou que Daniel não participou da confusão, mas confirmou que na saída, por volta das 5h30m, apareceram cerca de dez rapazes tentando agredi-los. Eles reagiram e começaram a brigar. Gustavo disse ter ouvido três tiros e que viu Daniel cair com o rosto ensangüentado. Mesmo no chão, ferido, disse Gustavo, o jovem foi agredido com dois chutes no rosto pelo grupo de rapazes que acompanhava o filho da promotora.
Especialistas criticam comportamento do PM
Para o tenente-coronel da PM e estudioso de violência urbana Milton Corrêa da Costa, o excesso no uso da força sempre termina em tragédia. Segundo ele, em casos como este, o uso da arma pode ser feito para desencorajar o oponente.
¿ Não é preciso atingir órgãos vitais da pessoa, como aconteceu com Daniel, atingido à curta distância na região do tórax. Há informações, a serem confirmadas, de que Daniel foi atingido pelas costas, o que pode determinar que o tiro foi inconseqüente para um profissional de polícia.
Para o capitão da PM reformado Paulo Storani, secretário municipal de Segurança de São Gonçalo, o soldado Parreira não deveria ter sacado a pistola durante a briga. Segundo ele, houve um excesso porque não havia outra pessoa armada no grupo.
¿ Esse soldado deveria tentar neutralizar a agressão de outra forma. Se não havia perigo iminente para a vida dele e para a do rapaz, a arma foi um excesso ¿ disse o oficial, que foi instrutor de tiro da PM.