Título: Déficit externo maior
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 24/06/2008, Economia, p. 17
BC quase dobra previsão de saldo negativo para US$21 bi, que pode ser o pior desde 2001
Patrícia Duarte
Avelocidade com que as multinacionais remeteram às suas matrizes lucros e dividendos no primeiro quadrimestre deste ano levou o Banco Central (BC) a piorar, e muito, sua projeção do déficit de 2008 na conta corrente - transações de bens e serviços do Brasil com o resto do mundo. O número pulou de US$12 bilhões - que, em março, quando foi anunciada já era inviável - para US$21 bilhões, o equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país). Atualmente, está acumulado em US$14,717 bilhões até maio. O salto é de 75% e, se confirmado, será o pior resultado desde 2001 (US$23,2 bilhões) e o primeiro déficit desde o início do governo Lula, em 2003. Também influenciou a revisão dos dados a deterioração dos demais itens que compõem as transações correntes, como pagamento de juros e viagens internacionais.
Essa piora não foi compensada pelo saldo esperado para a balança comercial, cuja projeção recuou em US$2 bilhões. Isso significa que, para pagar as transações integralmente, o Brasil terá de contar com os investimentos estrangeiros no setor produtivo e no mercado financeiro. Neste caso, o cenário é bom. Pela conta financeira do balanço de pagamento deve entrar no Brasil este ano o recorde de US$60 bilhões - cobrindo, com sobra, o descasamento da conta corrente.
No entanto, a nova previsão também aponta redução do ritmo das remessas daqui em diante, diminuindo o déficit em conta corrente. Observou-se esse movimento em maio, quando as transações foram deficitárias em US$649 milhões, contra rombos mensais entre US$2 bilhões e US$4,4 bilhões de janeiro a abril. Esse mês, estima o BC, o resultado deve ficar negativo em US$1,2 bilhão.
- Vamos ver uma acomodação do déficit (em transações correntes) daqui para frente porque as remessas de lucros e dividendos também estão se acomodando - avaliou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.
Gasto com viagens sobe 185% no ano
Em junho, até ontem, as remessas somavam US$1,26 bilhão, devendo fechar o mês em US$1,6 bilhão - menos da metade da média de US$3,5 bilhões mensais do primeiro quadrimestre. Mas o desempenho entre janeiro e abril levou o BC a rever a projeção de déficit de US$24 bilhões para US$29 bilhões (25% de alta). Segundo Lopes, esse comportamento foi provocado pela crise internacional, obrigando as filiais brasileiras a financiarem suas matrizes no exterior. A mudança de tendência deve estar ligada à melhora do cenário externo.
Além disso, o BC aumentou de US$4 bilhões para US$5 bilhões a previsão para os gastos com viagens internacionais. O saldo negativo no ano atingiu, graças ao dólar baixo, o recorde de US$2,014 bilhões, volume 185% maior que no mesmo período de 2007.
Pelo lado positivo, apesar de também desacelerando, entram os recursos da balança comercial. Em maio, o superávit foi de US$4,077 bilhões e o BC cortou suas estimativas deste ano de US$27 bilhões para US$25 bilhões, com expectativa de aumento das importações.
- A velocidade da deterioração da conta corrente do país veio muito rápido. Mas isso não é uma tendência porque a economia conta com investimentos e políticas monetária e fiscal de melhor qualidade - avaliou o economista-chefe do WestLB, Roberto Padovani.
O BC estima saldo de US$35 bilhões este ano em investimentos estrangeiros diretos, quase 10% mais que o anteriormente previsto. Até maio, entraram US$13,984 bilhões, insuficientes para cobrir o saldo negativo das transações correntes.
Para especialistas, os saldos negativos na conta corrente podem ser um problema caso seu ritmo de expansão se mantenha a médio prazo.
- Enquanto o déficit ficar abaixo dos 3% do PIB, está tudo sob controle - afirmou o economista-chefe do banco Schahin, Sílvio Campos Neto.
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