Título: Lula recebe famílias de vítimas da Providência
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Fonte: O Globo, 24/06/2008, Rio, p. 15

Secretaria Nacional de Direitos Humanos estuda incluir parentes de jovens no Programa de Proteção à Testemunha

Legenda da foto: LÍLIAN GONZAGA, mãe de uma das vítimas: "Eu pedi, mas ele (Lula) não falou nada, não. Só pedi a ele. Ele não pode fazer nada por mim, não"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador Sérgio Cabral receberam, na tarde de ontem, as famílias dos três jovens mortos por traficantes do Morro da Mineira após serem deixados na favela por 11 militares do Exército que participavam da ocupação do Morro da Providência, onde os três moravam. Nenhum integrante dos governos federal e estadual quis falar sobre o encontro, que durou pouco mais de meia hora, no Palácio Guanabara.

No encontro, as famílias repetiram o pedido que já tinham feito ao ministro Vanucchi na sexta-feira passada, quando ele esteve no morro: a entrada deles no Programa de Proteção à Testemunha, apoio psicológico e a retirada do Exército sem que a Força Nacional de Segurança seja a substituta dos militares. O presidente teria ouvido os pedidos, mas não se comprometeu com nenhuma decisão. Os parentes das vítimas não quiseram falar sobre a reunião. Apenas a mãe de um dos mortos, Lílian Gonzaga da Costa, fez um rápido comentário na saída:

- Eu pedi, mas ele (Lula) não falou nada, não. Só pedi a ele. Ele não pode fazer nada por mim, não - disse Lílian, mãe de Wellington Gonzaga da Costa, de 19 anos.

Ela e os parentes chegaram ao Palácio por volta das 14h, enquanto o presidente Lula participava de uma cerimônia de liberação de recursos para a candidatura do Rio aos Jogos Olímpicos. A chegada das famílias foi marcada por desencontros. Elas iriam em carros da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que organizou o encontro. Mas, às 12h30m, antes do horário combinado de 14h, uma equipe da Secretaria estadual de Assistência Social pegou os parentes das vítimas.

O fato gerou uma discussão entre o ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, e a secretária estadual, Benedita da Silva, dentro do palácio. O ministro Vanucchi já havia também se indisposto com seu colega Nelson Jobim, do Ministério da Defesa, que era contrário ao encontro do presidente com as famílias.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, antes do encontro com o presidente, houve reuniões prévias dos parentes com representantes da secretaria, para tratar dos pedidos que foram formalizados ainda na sexta-feira. Segundo a assessoria, o pedido de apoio psicológico e de ingresso no programa de proteção está sendo estudado.

Sargento e soldados pedem desculpas

Ontem, um sargento e três soldados que participaram da entrega dos jovens aos traficantes e estão presos no Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, escreveram uma carta, endereçada à população do Rio, pedindo desculpas pela morte dos moradores da Providência. Na correspondência, que deverá ser divulgada hoje pelo advogado Walmar Flávio de Jesus, o sargento Leandro Maia e os soldados Fabiano Elói, Júlio e Rafael Cunha classificam o tenente Vinicius Ghidetti de Moraes Andrade, que teria comandado a entrega dos jovens, como um inconsequente.

Ontem, a substituição dos soldados do Exército por policiais continuou sendo feita no Morro da Providência. Mais dez homens do Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (Gpae) reforçaram o patrulhamento na favela, juntando-se aos 80 que já estavam no local desde o fim de semana. Segundo o comandante do Gpae da Providência, capitão Leonardo Zulma, os policiais estão percorrendo toda a comunidade, incluindo o canteiro de obras do projeto Cimento Social, vigiado pelo Exército. Policiais militares do batalhão Rondas Ostensivas Nazareth Cerqueira (Ronac) continuavam a patrulhar o entorno do morro, dando apoio às equipes do 5º BPM (Praça da Harmonia).