Título: Eleição influenciou reajuste do Bolsa Família
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 27/06/2008, O País, p. 10

Insatisfação de beneficiados com aumento de preços ameaçava atingir popularidade de Lula, indicou pesquisa

Gerson Camarotti

BRASÍLIA. Apesar da negativa oficial do Palácio do Planalto, o reajuste de 8% no Bolsa Família teve forte componente eleitoral. Estudos em poder de assessores do governo indicam que o aumento acentuado nos preços dos alimentos já ameaçava atingir a popularidade do governo e do próprio presidente. Isso acontece, principalmente, entre os beneficiados pelo Bolsa Família - cerca de 45 milhões de brasileiros, o que representa um quarto da população do país.

Essa insatisfação desse grupo de pessoas, segundo explicou um dos responsáveis pela imagem do governo, foi fundamental para a decisão do presidente de aumentar o valor o benefício acima da inflação.

Segundo esta fonte, levantamentos qualitativos já indicam que as pessoas de renda mais baixa começam a ter dificuldade de manter o poder de compra de alimentos e também de pagar prestações de eletrodomésticos. Esses estudos indicavam antes que, em muitos casos, os benefícios davam condições às famílias de assumir compromisso na compra de bens materiais. Agora, esse segmento da população está gastando mais com alimento, principalmente da cesta básica.

Avaliação reservada feita no governo é de que é neste eleitorado de classes D e E que o presidente tem seu "colchão de popularidade", que amorteceu a queda acentuada dos seus índices em momentos de crise, como a do mensalão, em 2005. A expectativa, com a decisão desta semana de aumentar o Bolsa Família, é de que a popularidade do presidente nesse segmento fique preservada.

O governo percebeu ainda forte movimentação de setores da oposição, nas últimas semanas, que ameaçavam se antecipar ao Planalto e pedir o aumento do valor do Bolsa Família. Setores do DEM já ensaiavam pedir um reajuste de 11% no benefício. O presidente Lula foi alertado de que, se isso acontecesse, o governo correria o risco de perder para a oposição a paternidade do aumento. Isso também ajudou a consolidar a convicção de Lula em relação ao reajuste.

Planalto em alerta com risco de inflação superar previsões

O aumento acabou sendo acima do que era solicitado pelo próprio ministro de Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, que reivindicava o reajuste de 6% da inflação. De 2003 a 2007, o Bolsa Família nunca tinha recebido um reajuste, apesar da insistência de Patrus e do desgaste dele com a equipe econômica. Agora, ocorreu justamente o contrário.

Além da preocupação pontual com a rápida deterioração do poder de compra do Bolsa Família, o presidente Lula começou a manifestar de forma mais clara sua preocupação com o risco inflacionário. Até então resistente com as medidas do Banco Central para conter a inflação, o Planalto entrou em alerta com o risco de a inflação chegar perto do teto de 6,5% da meta.

A preocupação no governo é que o retorno da inflação possa afetar de forma significativa a sua popularidade, faltando pouco mais de dois anos para o fim do mandato do presidente Lula. Por isso, a decisão de discutir soluções preventivas para conter a inflação e de pôr fim à resistência que existia do Planalto em relação à necessidade de o Banco Central elevar juros. De forma reservada, assessores do Planalto já admitem um aumento gradativo da taxa Selic durante todo o ano de 2008.