Título: Zimbábue vai às urnas em clima pré-guerra civil
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Fonte: O Globo, 28/06/2008, O Mundo, p. 39
Comunidade internacional não reconhece legitimidade do pleito, que teve o ditador Mugabe como candidato único
HARARE. O Zimbábue realizou ontem o segundo-turno de suas eleições presidenciais num pleito considerado pela Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) como pior do que o de Angola em 1992, quando o país africano entrou numa guerra civil. O SADC disse que o pleito não teve qualquer credibilidade. Vários países tacharam de farsa as eleições, que tinham o presidente Robert Mugabe como candidato único.
O candidato da oposição do Zimbábue, Morgan Tsvangirai ¿ que retirou sua candidatura no domingo diante da onda de violência contra seus partidários ¿ afirmou que eleitores foram obrigados a votar em Mugabe sob risco de assassinato.
Segundo testemunhas, milícias do governo batiam de porta em porta e depois exigiam identificação dos eleitores e o número de série da cédula eleitoral para que o voto pudesse ser conferido por um oficial do partido de Mugabe, o Zanu-PF. O ditador está no poder desde que o país deixou de ser colônia britânica, em 1980.
¿ O que se vê hoje não é uma eleição. É um exercício de intimidação em massa com pessoas de todas as partes do país sendo forçadas a votar ¿ disse Tsvangirai.
O líder da oposição, refugiado na embaixada da Holanda desde que abandonou a disputa, fez um pedido pela manhã para a população se abster, mas disse que eleitores deveriam ir às urnas se estivessem correndo perigo. Segundo ele, milhões boicotaram as votações mesmo com o clima de intimidação.
¿O que quer que aconteça, os resultados não serão reconhecidos pelo mundo. Não importa o que você for forçado a fazer, nós sabemos o que está no seu coração. Não ponha sua vida em risco. A vitória do povo pode ser adiada, mas não ser negada,¿ disse ele num comunicado.
No primeiro turno, em março, eleitores fizeram fila desde cedo para votar. Deram maioria no parlamento à oposição e vitória a Tsvangirai ¿ a primeira derrota de Mugabe nas urnas. Desde então, o país vive uma escalada de violência e assassinatos.
Conselho de Segurança pode aplicar novas sanções
O G-8, grupo dos países mais ricos do mundo, reprovou o segundo turno e o Conselho de Segurança da ONU disse que pode anunciar novas sanções ao país na semana que vem. O vencedor do prêmio Nobel da Paz Desmond Tutu, considerado uma espécie de consciência moral da África do Sul, disse que o mundo tinha o direito de intervir no país e deveria considerar o congelamento de vôos como forma inicial de pressão. Já a União Africana (UA) disse estar convencida de que poderia resolver a crise. O presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, mediador regional no Zimbábue, se manifestou favorável ao reconhecimento da reeleição e sofreu críticas por sua postura diplomática, considerada ineficaz.