Título: Preços dominam reunião do Mercosul
Autor: Beck, Martha; Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 01/07/2008, Economia, p. 25

Em encontro na Suíça, BIS prevê que Brasil não cumprirá meta em 2008.

TUCUMÁN, Argentina, e PARIS. A escalada da inflação nos países do Mercosul foi o principal tema da reunião de ministros da Economia e dirigentes dos bancos centrais do bloco ontem, véspera do encontro de cúpula dos presidentes sul-americanos. As autoridades econômicas estão preocupadas com a especulação nas bolsas de mercadorias - que inflou os preços das commodities agrícolas.

Embora todos tenham concordado que é preciso tomar medidas para conter os preços e garantir o abastecimento, Brasil e Argentina vêm adotando caminhos diferentes. Enquanto os argentinos inibem as exportações de grãos taxando produtos como soja e girassol em mais de 40%, o governo brasileiro decidiu estimular o aumento da produção, por meio da expansão de recursos para o plantio e do financiamento da safra agrícola.

O governo argentino também tem restringido as exportações de trigo, causando irritação ao governo brasileiro, uma vez que a inflação no Brasil, importador do cereal argentino, é afetada.

Durante o encontro, os governos do Brasil e da Argentina decidiram autorizar, a partir de setembro deste ano, o comércio entre os dois países em moeda local - ou seja, em peso ou real, sem o dólar. O acordo será assinado na primeira semana de agosto, durante uma nova visita de Luiz Inácio Lula da Silva à capital argentina.

BIS: há forte risco de desaceleração mundial

Em Basiléia, na Suíça, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) - espécie de banco central dos bancos centrais - pintou um quadro sombrio ontem para a economia mundial, alertando que os riscos de aumento da inflação global, de uma crise bancária e de desaceleração na economia mundial são, hoje, reais.

Segundo relatório da instituição, a inflação mundial, hoje de 4,7%, poderá aumentar "nos próximos meses" por causa da disparada nos preços de alimentos e energia. Mas é nos países emergentes, segundo o BIS, que ela avança mais rápido, pressionada também pelo aumento dos salários e da demanda.

Apesar de prever crescimento de 4,8% para o Brasil em 2008, o BIS alerta que o país poderá não cumprir a meta de inflação, de 4,5%. A instituição prevê que esta feche em 5,1% este ano.

- Confrontar o aumento da inflação com as consequências do tumulto no mercado financeiro representam o maior desafio para os bancos centrais dos últimos anos - disse o diretor-geral do BIS, Malcolm Knight.

COLABOROU Deborah Berlinck, correspondente