Título: CMN: meta de inflação para 2010 será de 4,5%
Autor: Beck, Martha; Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 01/07/2008, Economia, p. 25

Conselho decide que manutenção do patamar atual era a melhor maneira de segurar as expectativas de preços.

BRASÍLIA. A disparada dos índices de preços levou o governo a estabelecer a meta de inflação de 2010 em 4,5% ao ano pelo IPCA, com tolerância de dois pontos percentuais para baixo ou para cima - patamar adotado desde 2006, confirmado ontem também para 2009. Por unanimidade, o Conselho Monetário Nacional (CMN, composto por Fazenda, Planejamento e Banco Central) avaliou que a manutenção da meta seria a melhor forma de ancorar as expectativas de mercado para o comportamento futuro dos preços.

O CMN também decidiu manter a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) em 6,25% para o próximo trimestre, apesar da alta da inflação e da Selic. A TJLP é referência dos empréstimos do BNDES, maior financiador do setor produtivo.

- O CMN entendeu que o desenho atual da meta tem tido efeito satisfatório e permitido absorver choques - explicou o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, que apresentou a meta, quebrando a tradição do anúncio pelo ministro da Fazenda e o presidente do BC.

Governo espera que IPCA caminhe para centro da meta

Até começar o repique inflacionário atual, o BC tinha como objetivo reduzir o centro da meta a longo prazo. Ano passado, perdeu uma queda-de-braço com a Fazenda sobre isso. Mas o cenário mudou, deixando o BC sem força para brigar por esse objetivo. O mercado prevê IPCA de 6,3% este ano e de 4,8% em 2009, caindo a 4,5% somente em 2010.

Appy explicou que a decisão do CMN também mostra que o governo espera que a inflação se encaminhe para o centro da meta até 2010. Os integrantes do conselho tinham de fixar a meta de 2010 e confirmar ou modificar a de 2009, já definida em 4,5%.

Segundo o estrategista sênior de investimentos para a América Latina do banco WestLB, Roberto Padovani, a decisão foi acertada, pois mostra ao mercado que o governo aposta no controle da inflação e na convergência para a meta:

- Seria péssimo mexer na meta agora - afirmou.

Sobre a TJLP, o economista sênior da Unibanco Asset Management, José Luciano Costa, disse que sua manutenção mostra a intenção do governo de não desestimular os investimentos.

Previsão dos bancos já chega a 6,46% para IPCA no ano

As projeções do mercado financeiro revelam chances reais de que o teto da meta de inflação (6,5%) seja rompido este ano. A média dos 80 analistas consultados pelo boletim Focus prevê IPCA acumulado em 6,3%, contra 6,08% na semana anterior. O percentual sobe a 6,46% considerando-se as cinco instituições que mais acertam suas previsões, o chamado Top Five. As expectativas sobem há 14 semanas consecutivas, e cada vez mais economistas acham possíveis novas altas de juros.

A estimativa para a Selic deste ano permaneceu em 14,25% em dezembro, dois pontos acima do patamar atual, mas a de 2009 passou de 13% para 13,5%. Ou seja, a escalada dos preços consolidou a expectativa de que o ciclo de alta dos juros será longo. A previsão para o IPCA de 2009 passou de 4,78% para 4,8%. Para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, a situação da inflação preocupa. Mas não deve gerar atos extremos do BC, como a antecipação da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) para elevar os juros:

- Para nós, o importante é aumentar o calibre, elevar os juros de forma mais efetiva que a última elevação, de meio ponto percentual.

Com relação ao dólar, a estimativa é que feche 2008 a R$1,69 e 2009 a R$1,74. As estimativas para o PIB permaneceram em 4,8% em 2008 e em 4% no ano que vem.