Título: Providência: relatório cita conivência com crime
Autor: Alencastro, Catarina ; Goulart, Gustavo
Fonte: O Globo, 04/07/2008, O Globo, p. 23
Conselho diz em documento ter encontrado indícios de promiscuidade entre militares do Exército e traficantes
Catarina Alencastro e Gustavo Goulart
BRASÍLIA e RIO. Relatório preliminar do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) sobre a morte dos três jovens do Morro da Providência, no dia 14 de junho, diz haver indícios de promiscuidade nas relações entre militares e o crime organizado nos sete meses em que um efetivo do Exército esteve no local, fazendo a segurança das obras do projeto Cimento Social. Os rapazes foram assassinados após serem detidos e entregues por militares a traficantes do Morro da Mineira.
Segundo o secretário especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, a comissão que acompanha as investigações do caso identificou "gravíssimos sinais de contaminação" do Exército por traficantes.
O grupo esteve na Providência ouvindo moradores. Uma jovem revelou a existência de um toque de recolher, que não teria sido determinado pelas autoridades do Exército, mas pelos militares que atuavam na área. Ela contou que foi impedida de subir o morro de volta para casa depois das 22h. Os conselheiros ouviram ainda que soldados apreendiam fitas e CDs de funk de jovens da favela, por conterem "apologia ao crime". No entanto, em alguns carros dos militares, seria possível ouvir funk de autoria de grupos rivais daqueles que predominam na Providência.
O CDDPH deve recomendar, em seu relatório final, a descriminalização do desacato à autoridade - motivo alegado para a prisão dos jovens -, sugestão que consta da Convenção de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, da qual o Brasil é signatário. A comissão deverá recomendar a rediscussão da presença do Exército em obras como a do Cimento Social.
No Rio, o tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, acusado de chefiar o grupo de militares que entregou os três jovens a traficantes da Mineira, chorou durante depoimento prestado ontem no Tribunal do Júri da 7ª Vara Federal Criminal, ao falar do filho de dois meses. Durante cerca de duas horas e meia, ele insistiu na versão de que queria apenas dar um susto nas vítimas, ao deixá-las num morro dominado por traficantes de uma facção rival à que controla a Providência.
- Eu quis dar um susto neles para não ficar desmoralizado. Ameacei pegar a carga de uma caneta vermelha e usá-la para escrever na testa deles a sigla da facção criminosa. Quando o sargento Maia (Leandro Bueno), já na rua de acesso ao Morro da Mineira, fez contato com um traficante e voltou dizendo que estava tudo certo, fui até o bandido e reforcei a orientação de somente dar um susto - disse o tenente.
O tenente caiu em contradição algumas vezes. Seis dos 11 militares acusados do crime prestariam depoimento ontem.