Título: Israel: acordo de paz está próximo
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Fonte: O Globo, 14/07/2008, O Mundo, p. 19
Premier Olmert anuncia negociações com palestinos e libertação de prisioneiros
PARIS
Oprimeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, afirmou ontem que um acordo de paz com os palestinos nunca esteve tão próximo quanto agora. A declaração foi feita diante do presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, e da França, Nicolas Sarkozy, durante um encontro que reuniu 43 países da Europa e da região do Mediterrâneo em Paris.
Como forma de provar que a iniciativa é séria, o governo de Israel informou à ANP que libertará prisioneiros palestinos nos próximos dias. A informação foi dada a Abbas ainda em Paris, onde ocorreu uma reunião trilateral entre Israel, França e ANP, paralela à inauguração da União Pelo Mediterrâneo (UPM), uma iniciativa de Sarkozy. Segundo Olmert, era ¿um gesto de boa vontade¿ com os palestinos.
¿ Parece-me que nunca estivemos tão próximos da possibilidade de chegar a um acordo como estamos agora ¿ disse Olmert, que, segundo críticos, aposta em negociações internacionais para desviar a atenção de escândalos de corrupção.
Com muitos sorrisos, Sarkozy recebeu o israelense e o palestino diante das câmeras. O presidente palestino, porém deixou claro que nenhuma grande novidade deve ser esperada para os próximos dias.
¿ Tenho esperança de que podemos alcançar a paz dentro de alguns meses ¿ disse Abbas, elogiando Sarkozy por seu ¿profundo comprometimento¿ com as negociações de paz.
Tentativa de acordo também com Síria
As negociações entre palestinos e israelenses recomeçaram ano passado, quando o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, decidiu investir numa iniciativa para a região nos últimos meses de seu mandato. Deixando clara a aliança de seu país com os EUA, Olmert confirmou que a decisão de Sarkozy de destravar as negociações é importante, mas que elas devem ter participação americana.
A reunião inaugural da UPM também marcou uma aproximação entre Israel e a Síria. Num fato inédito, o presidente da Síria, Bashar al-Assad, sentou-se à mesma mesa do premier Olmert, durante uma reunião.
Segundo fontes israelenses, Olmert teria enviado, mais cedo, uma mensagem para a delegação síria de que o país fala sério quando diz que está disposto a negociar a paz sem pré-condições. Os contatos entre Israel e Síria ocorreram através da mediação da Turquia. O primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, teria ido pela manhã até o hotel em que está a delegação israelense. Depois, teria ido ao hotel dos sírios para transmitir a mensagem.
Não houve, no entanto, um aperto de mãos entre Assad e Olmert, nem mesmo contatos diretos. O presidente sírio sequer estava na sala quando Olmert discursou, tendo saído meia-hora antes.
Ao lado de Sarkozy, Assad foi a grande estrela do encontro. Depois de três anos isolado no Ocidente após o atentado que matou o ex-premier libanês Rafiq Hariri ¿ agentes sírios são suspeitos ¿, ele voltou ao cenário internacional pela porta da frente.
¿ Peço que França e EUA participem num futuro acordo de paz entre Israel e Síria, na fase de negociação direta e na aplicação do acordo, incluídos os acertos de segurança que possam ser necessários ¿ disse Assad.
O convite a Assad pode ser considerado um prêmio pelo país ter colaborado com a estabilização do Líbano. Muito influente junto ao Hezbollah, Damasco ajudou no acordo entre governo e oposição, encerrando uma grande crise no país. Ontem, ele anunciou que os governos de Síria e Líbano vão voltar a ter embaixadas.
A UPM é uma iniciativa de Sarkozy para ampliar a influência da França. O país acaba de assumir a presidência rotativa da União Européia. Defendendo a nova organização ¿ que ainda não tem a estrutura bem definida ¿, ele lembrou a experiência da UE.
¿ Todos terão que se esforçar, como os europeus fizeram, para dar um fim à espiral mortal de guerra e violência, que, século após século, trouxe a barbárie para o coração da civilização ¿ disse o presidente francês.