Título: Para as Farc, traição e fuga
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Fonte: O Globo, 12/07/2008, O Mundo, p. 33

Grupo diz que não houve resgate e acusa carcereiros de facilitarem libertação de reféns

BOGOTÁ

Na primeira declaração desde o resgate da ex-senadora Ingrid Betancourt e de outros 14 reféns, há dez dias, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) disseram ontem terem sido traídas pelos guerrilheiros que tomavam conta dos seqüestrados. Segundo a guerrilha, os carcereiros chamados pelos codinomes ¿César¿ e ¿Enrique Gafas¿, capturados durante a operação do Exército colombiano que libertou o grupo, traíram seu ¿compromisso revolucionário¿. Em comunicado divulgado ontem, as Farc não falam em resgate, mas em fuga.

¿A fuga dos 15 prisioneiros de guerra, na última quarta-feira 2 de julho, foi conseqüência direta da desprezível conduta de César e Enrique, que traíram seu compromisso revolucionário e a confiança que se depositou neles¿, diz a nota divulgada pelo site da Agência Bolivariana de Imprensa (ABP), que publica pronunciamentos dos rebeldes.

O texto também diz que a guerrilha continua interessada em buscar acordos humanitários que ¿alcancem o intercâmbio (de reféns na selva por rebeldes em prisões), além de proteger a população civil dos efeitos do conflito¿, numa insinuação de que a vida dos seqüestrados seria posta em risco, embora na operação de resgate da semana passada o Exército não tenha disparado um só tiro.

¿Se persistir o resgate como única via, o governo deve assumir todas as conseqüências de sua decisão temerária e aventureira¿.

Um dia depois de autoridades colombianas anunciarem terem desbaratado um plano das Farc para libertar centenas de guerrilheiros presos numa carceragem do país, a nota também diz que a guerrilha continuará lutando para libertar rebeldes presos.

Clara diz que não vota mais em Ingrid

Ontem, nove dias após o resgate, Ingrid Betancourt anunciou que estava cansada e que precisava ¿parar e fazer uma espécie de retiro¿, saindo das manchetes. A declaração foi feita em entrevista à rádio francesa Europe 1, que começou com 20 minutos de atraso pois, segundo Ingrid, fora ¿fisicamente impossível¿ levantar mais cedo pela manhã.

Os sinais de exaustão já eram percebidos na noite de quarta-feira, quando, em entrevista à CNN, Ingrid trocou a vitalidade, o bom-humor e o discurso firme dos primeiros dias pós-libertação por um semblante cansado, lentidão para formar frases e dor nas curtas respostas sobre a vida na selva.

Coincidência ou não, o cansaço veio junto com duras críticas vindas de sua ex-companheira de cárcere Clara Rojas, candidata a vice de Ingrid nas eleições de 2002, quando as duas foram seqüestradas pelas Farc.

Um dos pontos de conflito foi uma declaração de Ingrid sobre o filho de Clara, Emmanuel, nascido no cativeiro. Ingrid disse numa entrevista que teria salvado a vida do menino na selva.

¿ Não sei de onde ela tira isso ¿ disse Clara, acrescentando que a relação da ex-senadora com Emmanuel era ¿zero¿ e que eles ficaram boa parte do tempo em lugares distintos. ¿ Eles estavam na área para fumantes e eu na de não fumantes e não tínhamos nada a ver. Não sei sobre o que está falando.

Clara declarou que, hoje, não votaria mais em sua antiga companheira de chapa. Segundo ela, ¿há uma experiência na forma de lidar com as relações humanas que deve melhorar, e em como formar equipes¿.

¿ Tenho um sentimento de admiração e carinho por Ingrid, é claro, porque compartilhei tantas coisas com ela, mas, já conhecendo uma parte de seu temperamento, há coisas que me assustam ¿ disse. ¿ Me assusta essa incapacidade de Ingrid de fixar certos limites, essa sensibilidade com certas coisas, porque ela é uma coisa perante a mídia e outra em sua vida pessoal.

Da França, Ingrid disse que ainda não planeja voltar à Colômbia, para não criar inquietudes à sua família.