Título: Investigação pode revelar conexão com políticos
Autor: Casemiro, Luciana
Fonte: O Globo, 13/07/2008, Economia, p. 33
Ação em Milão sugere propinoduto entre Dantas, Telecom Italia e parlamentares brasileiros.
BRASÍLIA. Além das supostas provas contra o PT e o Planalto arquivadas na Justiça de Nova York em disputas da Brasil Telecom, um acervo ainda maior permanece intocado por autoridades brasileiras na Itália. Trata-se do processo de investigação da Procuradoria de Milão sobre um escândalo de corrupção na Telecom Italia que sugere um propinoduto de milhões de euros para autoridades brasileiras, dentro de um complexo sistema de espionagem, contra-informação e lobby político.
A lista dos agraciados brasileiros - que pode ampliar para a seara política a investigação contra Daniel Dantas, dono do Opportunity, e o investidor Naji Nahas - jamais veio a público. Mas, há alguns meses, uma das testemunhas da Procuradoria de Milão, a brasileira Luciene Araújo, deu entrevistas a veículos brasileiros, como o "Consultor Jurídico" e a "Carta Capital", no qual relata seu trabalho de tradutora para Marco Bernardini, detetive da Telecom Itália.
Tradutora tirava dúvidas com pessoal da polícia
Ela cita, por exemplo, que Vincenzo Carosi, advogado de seu chefe, é muito ligado a Marcos Valério, que estaria colaborando com o processo em Milão. Além disso, afirma que, quando precisava "tirar dúvidas" contatava diretamente funcionários da Polícia Federal, suposta fonte das escutas que ela traduzia.
Ela fala sobre presença de um detetive chamado Tiago Verdial, nome confirmado como funcionário da Kroll no Brasil, para o caso Opportunity-Dantas em depoimento de Eduardo Gomide, diretor da Kroll, na CPI do Grampo há dias. Fala ainda que o senador José Agripino (DEM-RN) foi mencionado em falas e que Bernardini talvez tenha tido um encontro com "Ideli S", a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).
Gushiken e "JD" - os ex-ministros Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação) e José Dirceu (Casa Civil) - surgem, segundo Luciene, em conversas, como "garantidores" e gerenciadores de interesses. Mas a coroa de seu depoimento são dados do suposto propinoduto italiano. Luciene relata faturas semanais de US$180 mil e "encomendas" de US$600 mil. A quem é a pergunta que faz tremer o mundo político atualmente.
Apesar disso, as provas continuam intocadas por investigadores brasileiros. A CPI do Grampo se interessou pelo tema e vai votar na próxima semana requerimento para solicitar dados ao governo italiano.
Quando a denúncia fez manchetes na Itália em novembro de 2007, envolvendo "deputados da Comissão de Ciência e Tecnologia" do Brasil em 2002 e 2003, parlamentares pediram providências. A solicitação seguiu para o deputado Alexandre Santos (PMDB-RJ), procurador da Câmara, que deu sumiço na papelada por oito meses. Ele foi titular da Comissão de Ciência e Tecnologia em 2003.
O processo só reapareceu após questionamentos do GLOBO e desde então tramitou celeremente: o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), oficiou imediatamente o Ministério das Relações Exteriores para buscar informações na Itália.
O suposto propinoduto italiano teria movimentado milhões de euros entre 2002 e 2003, quando a Telecom Italia disputava o controle da BrT com o grupo Opportunity, de Daniel Dantas. Era início do governo Luiz Inácio Lula da Silva e os fundos de pensão, com apoio de Gushiken, buscavam um rompimento com Dantas e o Citigroup dentro da sociedade na BrT. A Telecom Italia, o outro sócio, era um aliado natural. Depois disso, o Citigroup, por suposta pressão do Planalto, fechou com os fundos e afastou Dantas da BrT sob acusações de desvios e gestão temerária.
Procuradores federais em Milão, ao apurar o escândalo de corrupção interno, esbarraram nos tentáculos com o Brasil. Naji Nahas seria um dos canais do propinoduto, de acordo com o depoimento, por delação premiada, de Giuliano Tavaroli, e outros ex-diretores da tele italiana. Nahas foi preso com Dantas pela Polícia Federal, sob acusação de crime financeiro.