Título: Propaganda negativa
Autor: Berlinck* , Deborah
Fonte: O Globo, 21/07/2008, Economia, p. 17
Ao reagirem às declarações do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre nazismo, os Estados Unidos estão adotando uma estratégia para desqualificar a posição do Brasil às vésperas de uma reunião crucial hoje, com 35 ministros, na Organização Mundial de Comércio (OMC), sobre a Rodada de Doha, que se arrasta há quase sete anos. Essa é a avaliação de negociadores brasileiros próximos a Amorim. Ao ser perguntado por jornalistas se compartilhava dessa visão, o chanceler respondeu:
- Eu concordo.
Ontem, houve novas reações às citações de Amorim. No sábado, o chanceler acusou os países ricos de orquestrarem uma campanha de desinformação nas negociações da OMC, ao acusarem os emergentes, e o G-20 em particular, de estarem dificultando um acordo para concluir a Rodada de Doha. O problema é que, para ilustrar, Amorim citou o chefe de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, que dizia que uma mentira contada muitas vezes acaba sendo aceita como verdade.
Funcionário da UE: "lamentável"
Citar o nazista Goebbels chocou a principal negociadora de comércio dos EUA, Susan Schwab, que é filha de sobreviventes do Holocausto. Seu porta-voz, Sean Spicer, disse ao jornal francês "Le Monde" que "no momento em que tentamos encontrar um resultado favorável para as negociações, esse tipo de comentário é muito mal recebido". Spicer evocou a "história pessoal" de Susan e disse que um chanceler "deveria ter consciência de certas sensibilidades".
Um alto funcionário da União Européia (UE) classificou o episódio de "altamente lamentável". Já o representante de Comércio da UE, Peter Mandelson, cujo pai é judeu, não deu importância:
-Vamos deixar Goebbels de lado.
Ontem, diante da repercussão de seus comentários nos jornais brasileiros e em algumas agências de notícia estrangeiras, Amorim tentou minimizar o episódio, que causou um mal-estar diplomático.
- Eu sinto muito. Quem cobriu política no Brasil sabe que isso é dito milhões de vezes sem ofensa a ninguém.
No dia da declaração de Amorim, o Itamaraty já divulgara nota dizendo que ele fora "suficientemente cuidadoso para desqualificar o autor da frase".
Ministro mantém sua posição
Ontem, Amorim reafirmou que lamentava ter ferido sentimentos e insistiu que não fora sua intenção:
- Eu sinto muito. Comecei meus comentários desqualificando o autor. Talvez se eu tivesse dito o mesmo, sem mencionar o autor, o que seria uma espécie de plágio, não haveria reação.
Mas o chanceler insistiu que os países ricos estão contando mentiras sobre as negociações da OMC:
- O que mantenho é o seguinte: repetir uma distorção faz as pessoas acreditarem que a distorção é uma verdade.