Título: A fortaleza' da milícia
Autor:
Fonte: O Globo, 23/07/2008, Rio, p. 12
A polícia apresentou ontem o arsenal de dez armas e farta munição encontrado na casa do deputado Natalino Guimarães (DEM, mesmo partido do prefeito Cesar Maia), em Campo Grande, "fortaleza" de uma milícia da Zona Oeste. Documentos que mostram a contabilidade da quadrilha também foram apreendidos no imóvel, durante a Operação Lady Kate, personagem do programa humorístico "Zorra total", da Rede Globo, que ficou rica da noite para o dia. O deputado e cinco homens que participavam de uma reunião na casa foram presos em flagrante, na noite de segunda-feira, após intenso tiroteio entre a polícia e seguranças do grupo.
Segundo o delegado da 35ª DP (Campo Grande), Marcus Neves, Natalino vai responder a inquérito pelos crimes de tentativa de homicídio, porte ilegal de armas de uso exclusivo das Forças Armadas, formação de quadrilha e favorecimento pessoal, por esconder um foragido da Justiça, Fábio Pereira de Oliveira, o Fábio Gordo - que atuava como segurança e estava com a prisão preventiva decretada, por homicídio e extorsão.
O delegado informou que o grupo decidia as ações da milícia, autodenominada Liga da Justiça, que já chegou a faturar R$4 milhões por mês com exploração de transporte alternativo, TV a cabo clandestina e venda superfaturada de botijões de gás em favelas - o valor caiu, disse Marcus, a algo entre R$1,5 milhão e R$1,8 milhão, devido à repressão policial.
Sete pessoas que participavam da reunião conseguiram fugir por um portão nos fundos, entre elas o sobrinho de Natalino, Luciano Guinancio Guimarães, filho do vereador Jerônimo Guimarães, o Jerominho (PMDB) - detido desde dezembro do ano passado. Com a prisão dos irmãos, Luciano passaria a ser o chefe da milícia, de acordo com a polícia.
Casa foi cercada e houve troca de tiros
A chegada dos policiais à casa do parlamentar, na Rua Itatitara, às 22h40m, provocou reação dos seguranças, que atiraram. Durante o confronto, segundo a polícia, Natalino tentou fugir, mas foi detido. A operação, com cem policiais, foi chefiada por Marcus, com apoio dos delegados Allan Turnowski, diretor das Delegacia Especializadas, e Rodrigo Oliveira, titular da Coordenadoria de Recursos Especiais, além de PMs do Regimento de Polícia Montada (RPMont).
- Eles estavam com fuzis, escopetas e muita munição - disse Marcus. - Temos pelo menos 40 nomes no inquérito policial.
No confronto, Fábio Gordo foi baleado na mão esquerda. Além de Natalino, foram presos Rogério Alves de Carvalho, de 31 anos, cabo do 27ºBPM ( Santa Cruz); o assessor parlamentar e motorista do deputado Júlio César Pereira da Costa, de 40; e o cabo Ivilson Umbelino de Lima, de 31, do RPMont. O PM conseguiu fugir durante o tiroteio, mas depois se entregou. O agente penitenciário aposentado Wagner Resende de Miranda, de 52 anos, foi preso horas antes, em Campo Grande, com uma pistola Glock. Na casa dele, a polícia apreendeu documentos, um CD com a inscrição "Matriz Daniel Jerominho", toucas ninja e uma foto de uma menina com uma arma. Também foi apreendido um computador com fotos de pessoas exibindo-se com fuzis e lança-rojões.
De acordo com o delegado, o parlamentar ainda tentou fugir do cerco policial:
- Ele foi cercado por policiais e teve que entregar sua pistola. Ele não poderia mais portar arma de fogo. Principalmente uma pistola de calibre .40 que é de uso privativo de policiais civis. Além disso encontramos um arsenal na casa dele.
O chefe de Polícia Civil, Gilberto Ribeiro, lembrou que tanto Natalino como Jerominho foram demitidos da Polícia Civil, portanto não poderiam mais usar armas.
Natalino foi levado para Bangu 8
No início da tarde de ontem, Natalino foi transferido para a Penitenciária Pedrolino Werling de Oliveira (Bangu 8). Ele deixou a 35ª DP (Campo Grande) após negar participação na milícia. Natalino também negou conhecer os policiais presos. Disse ainda que as armas não eram dele, que teriam sido jogadas por cima do muro pela polícia, e que não conhece as pessoas que estavam saindo de sua residência. Pela manhã, com a chegada dos jornalistas à delegacia, o parlamentar deu uma entrevista:
- Foi uma prisão ilegal, imoral, forjada. Eu estava saindo de casa para levar um rapaz que é policial e, quando cheguei ao portão, havia cerca de 50 policiais armados. Falaram para não reagir e atiraram. Tive que entrar correndo para proteger a minha família. Estou sofrendo junto com meu irmão uma perseguição política porque fiz uma denúncia na Alerj sobre a corrupção na Polinter - argumentou. - O Marcus Neves foi colocado aqui para me perseguir. Ele é um mentiroso, covarde, doente mental, maluco. A arma que estava comigo é da polícia e a escopeta é de minha propriedade. Qualquer arma a mais foi colocada lá para me prejudicar.
Numa sala ao lado, Marcus Neves comentou os ataques do político:
- Ele faz ofensas pessoais. Não tenho problema pessoal com o deputado Natalino. Tenho um compromisso com o estado de direito. Vale a lei, e para todos. O Natalino e o Jerominho são os cabeças desse grupo que atua aqui há pelo menos oito anos, praticando homicídios, extorsões. Hoje, com a prisão dele, dermos um duro golpe na milícia.
Na penitenciária, Natalino fará companhia ao ex-banqueiro Salvatore Cacciola e aos policiais civis Hélio Machado da Conceição, o Helinho; Jorge Luís Fernnandes, o Jorginho; Fábio de Menezes Leão, o Fabinho, conhecidos como os "inhos", ligados ao deputado estadual Álvaro Lins. Os "inhos" foram presos pela Polícia Federal. O assessor Júlio César, Wagner Resende e Fábio Pereira foram levados para o Presídio Ary Franco, em Água Santa. O policial Rogério foi transferido para o Batalhão Prisional Especial e Ivilson, para o RPMont.