Título: Dose extra na taxa de juros
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 24/07/2008, Economia, p. 23
Inflação faz BC elevar Selic em 0,75 ponto, a segunda maior alta da era Lula.
Surpreendendo boa parte do mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou ontem em 0,75 ponto percentual a taxa básica Selic, que pulou para 13% ao ano. Ao alterar o ritmo de ajuste dos juros, que subiram 0,5 ponto nas duas reuniões anteriores, o Banco Central (BC) promoveu a segunda maior alta do governo Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão, unânime, demonstra a preocupação da equipe de Henrique Meirelles com a deterioração das expectativas de inflação, que não só romperam o teto de 6,5% da meta em 2008 como cada vez mais se afastam dos 4,5% definidos como centro da alvo em 2009.
É justamente a inflação do ano que vem, cuja projeção média de mercado está em 5%, que preocupa o BC. Uma puxada tão grande na Selic só havia sido observada, nos mandatos de Lula, em fevereiro de 2003. Naquele mês, em meio à forte escalada de preços em decorrência da desvalorização do real no processo eleitoral, o BC subiu os juros em um ponto percentual, para 26,5% ao ano.
No comunicado do Copom, o BC, como fizera na reunião de abril, deu um sinal ao mercado de que intensificou as elevações na Selic para reafirmar a austeridade no combate à inflação e tentar, assim, garantir um ciclo de alta mais curto.
"Avaliando o cenário macroeconômico e com vistas a promover tempestivamente a convergência da inflação para a trajetória de metas, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 13% ao ano, sem viés", diz a nota da diretoria do BC.
Para o analista econômico do banco Itaú Joel Pogdanski ainda é cedo, porém, para afirmar que o ciclo de alta dos juros será mais curto, porque isso depende de muitas variáveis. Entre elas, os elevados preços internacionais dos alimentos que, apesar de darem sinais de que vão ceder nas últimas duas semanas, ainda preocupam.
- Estamos vendo a volta do modo preventivo (do BC). Ainda é cedo para falar em um ciclo mais curto, mas há uma luz no fim do túnel - afirmou ele, para quem o Copom aumentaria a Selic em 0,5 ponto ontem e, agora, vai refazer suas projeções.
Outro ponto fundamental para a autoridade monetária é o mercado doméstico, devido ao descompasso entre oferta e demanda. O economista-chefe do BNP Paribas, Alexandre Lintz, argumentou que a atividade econômica continua muito aquecida e a alta dos preços no atacado - chega a 18% em 12 meses - ainda não foi totalmente repassada ao varejo.
O Departamento Econômico do Bradesco concorda com a avaliação. José Luciano Costa, do Unibanco Asset Management, acrescenta que a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) está praticamente inalterada. Contra 5,8% no primeiro trimestre, ele estima variação de 5,86% entre abril e junho. Ou seja: os sinais de demanda continuam fortes, chancelando reajustes de preços.
- O BC olha para as expectativas de inflação. A decisão foi a mais apropriada - concluiu Lintz, que defendia alta de 0,75 ponto.
Há tempos não se via análises tão divididas numa reunião do Copom. As estimativas de que a alta seria de 0,5 ponto prevaleceram por semanas mas, nos últimos dez dias, as apostas de que a puxada seria de 0,75 ponto ganharam corpo. Em abril, o comitê também surpreendera ao elevar a Selic em 0,5 ponto, quando grande parte do mercado acreditava que o aumento seria de 0,25.
A exposição de Henrique Meirelles no Senado, na semana passada, também influenciou a decisão. Na ocasião, ele afirmou que o BC agiria "vigorosamente" contra a inflação, o que, para alguns analistas, antecipou um "choque" nos juros.
A preocupação central do BC, como já deixou claro Meirelles, é garantir que a inflação de 2009 oscile o mais próximo possível do centro da meta do governo. Por enquanto, o mercado prevê que o IPCA de 2009 ficará em 5%, projeções que têm piorado a cada semana, indica a pesquisa Focus. A inflação de 2008, avalia o mercado, já não sofre influência dos movimentos da Selic.