Título: Lobão: 'esforço bestial' para cumprir exigências ambientais de Angra 3
Autor:
Fonte: O Globo, 26/07/2008, Economia, p. 22

RIO e ANGRA DOS REIS. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse ontem que a questão do descarte do lixo nuclear de Angra 3 não impedirá o início da construção da usina no prazo previsto, em setembro próximo. Lobão afirmou que o governo está fazendo um "esforço bestial" para atender às exigências do Ministério do Meio Ambiente.

- O ministro Minc (Carlos Minc, do Meio Ambiente) nos disse que está fazendo exigências brutais. E nós estamos fazendo um esforço bestial para resolver essas exigências - afirmou o ministro.

O Ibama apresentou à Eletronuclear, responsável pela execução de Angra 3, uma relação de 60 restrições ao conceder a licença prévia do projeto, na última quarta-feira. Para Lobão, algumas das exigências são fundamentais, outras não. O Ibama quer uma solução para os rejeitos radioativos antes da entrada em operação da usina, em 2014.

- Quem mais usa energia nuclear no mundo é a Coréia, que empilha o lixo em uma prateleira, sem cuidados absolutos. Então, essa é uma questão que não é fundamental a ponto de paralisar ou deixar de construir a térmica - disse Lobão.

Eletronuclear afirma que obras começam em setembro

O ministro acrescentou que ainda não existe, no mundo, uma tecnologia capaz de dar destino definitivo ao lixo nuclear, como quer Minc. As usinas Angra 1 e 2, por exemplo, armazenam as luvas, vestimentas e ferramentas contaminadas em piscinas nos prédios dos reatores.

José Muniz Lopes, presidente da Eletrobrás, estatal controladora da Eletronuclear, afirmou que as obras começam em 1º de setembro e que a companhia não tem alternativa além de atender às exigências do órgão ambiental. E esclareceu ainda que a exigência de um local para o depósito definitivo de lixo nuclear vale para quando a usina entrar em operação, em 2014, e não para o início das obras.

Leonan Santos Guimarães, assistente da presidência da Eletronuclear, explicou que existe uma divergência na interpretação das determinações do Ibama sobre o lixo nuclear. Em relação aos rejeitos de baixa e média radioatividade, o Ibama determina que em 2014, quando Angra 3 entrar em operação, seja iniciado também o processo de licenciamento do depósito definitivo para os mesmos. Ou seja, até lá, o local para o depósito desses resíduos tem que estar definido.

Já em relação aos rejeitos de alta radioatividade, o Ibama determina que, quando a usina entrar em operação, é necessário dar início ao processo para o projeto do depósito, ou seja, sem que isso implique que, nessa ocasião, já tenha sido escolhido o local.

- Entendemos que "iniciar o processo do projeto para a construção do local definitivo para os rejeitos de alta radioatividade" é começar, e não já ter escolhido ou construído o local - destacou Guimarães.

Já o ambientalista Ivan Marcelo Neves, do Instituto Socioambiental da Baía de Ilha Grande (Isab), discorda dessa interpretação. Para ele, a Eletronuclear terá que apresentar seu projeto de escolha do local definitivo para os rejeitos de alta radioatividade agora, para conseguir a licença de instalação do Ibama.

Se o lixo radioativo preocupa, Angra dos Reis já tem que conviver com condições precárias de saneamento e poluição urbana. Em pleno centro da cidade, o Rio do Choro, que em sua nascente tem água potável, carrega todo o esgoto de Angra dos Reis. As casas próximas ao Rio convivem com o forte cheiro do esgoto.

E, enquanto a polêmica ambiental se arrasta, moradores da região vêem nas obras de Angra 3 uma oportunidade de buscar emprego. É o caso do pedreiro Sandro Soares, de 34 anos, que nasceu em Angra. Ele afirma que não tem medo da usina nuclear nem dos rejeitos radioativos, desde que sejam bem guardados pela empresa responsável, nesse caso a Eletronuclear.

- A obra vai ser boa porque vai gerar serviço para nós. Tem muita gente desempregada. Tem muito bairro pobre por aqui - afirmou Soares.

O ministro de Minas e Energia afirmou ontem que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estuda a inclusão de novas regras nos editais dos leilões de empreendimentos hidrelétricos. A idéia é limitar a mudança do eixo da barragem de usinas, como a que provocou a batalha jurídica de dois consórcios em torno da usina de Jirau, no Rio Madeira (RO).

Lobão explicou que a intenção da agência não é impossibilitar a mudança do eixo, mas estabelecer limites.

Petrobras quer evitar greve de petroleiros

Mais tarde, Lobão e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, conversaram com jornalistas na sede da estatal, no Rio. Gabrielli afirmou que a companhia busca entendimentos com petroleiros para evitar uma segunda greve neste mês, marcada para começar em 5 de agosto. Os petroleiros querem participação de 18% nos dividendos pagos aos acionistas. Segundo o presidente da Petrobras, a greve pode ser evitada, mas a estatal já prepara um plano de contingenciamento.