Título: PF: ex-prefeito de SP faria tráfico de influência
Autor: Galhardo, Ricardo; Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 25/07/2008, Economia, p. 28

Grampos da Operação Satiagraha mostram Pitta passando informações sobre precatórios a grupo de Naji Nahas.

SÃO PAULO. Os relatórios da Operação Satiagraha apontam que o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (1997 a 2000) faria tráfico de influência em órgãos públicos para facilitar o recebimento de precatórios (dívidas judiciais). Os grampos da Polícia Federal (PF) mostram Pitta dando informações sobre precatórios ao grupo do investidor Naji Nahas, acusado na Satiagraha. Ele telefonava diariamente ao grupo e fazia recebimentos semanais, segundo a PF.

Pitta foi condenado duas vezes no "escândalo dos precatórios", a última em fevereiro, pelo juiz federal Márcio Rached Millani, o mesmo que atua agora na Satiagraha, em substituição ao juiz Fausto de Sanctis, que está de férias.

Em algumas gravações, Pitta cita precatórios de até R$90 milhões e fala em informações da "Procuradoria", segundo a PF. Em dois dos diálogos, entre Pitta e o doleiro Carmine Henrique, em 10 de março, a PF viu tráfico de influência por Pitta. Às 11h20m daquele dia, Carmine corrige uma informação para Pitta:

- Eu te falei ontem desse precatório, são cem milhões (de reais). Falei cem mil (reais). Pensei, acho que falei errado quando você me falou que era muito pouquinho.

- Cem milhões são precatórios corrigidos. Deve ser algum caso que eu deva conhecer. Depois você me relata - responde Pitta.

- É de uma desapropriação - afirma Carmine.

Mais tarde, às 12h51m, Pitta liga para Carmine e afirma:

- Uma notícia. Falei agora com o pessoal que detém lá a documentação do precatório, e eles disseram que o advogado titular do proprietário já tentou ir lá nesse banco vender o processo, mas eles disseram que tem uma pessoa cuidando disso para nós e não vamos atravessar o negócio, não.

-- Nem sei que banco que é ou não, mas é possível que tenha porque o cara... - diz Carmine.

- Tá se virando...

Advogada critica "deduções apressadas" da PF

Para Ruth Stefanelli, uma das advogadas de Pitta, as acusações da PF são deduções:

- São ilações que serão esclarecidas pelo ex-prefeito no momento adequado. A PF pinça diálogos monitorados e já faz deduções apressadas.

Pitta sofreu duas condenações, uma cível e outra penal, por fraude e desvio de finalidade na emissão de títulos para pagar precatórios entre 1994 e 1996, quando era secretário de Finanças na gestão de Paulo Maluf (PP), hoje deputado federal e candidato a prefeito da capital paulista. A operação teria provocado um prejuízo de R$600 milhões à prefeitura.

Na área criminal, Pitta foi condenado, em fevereiro, a dois anos e dois meses de prisão pela 8ª Vara Criminal Federal. Na área cível, ele foi condenado em 2007. Pitta e o ex-coordenador da Dívida Pública da prefeitura Wagner Baptista Ramos têm de devolver cerca de R$30 milhões aos cofres públicos.