Título: Ricupero: Negociações vão deixar cicatrizes
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 30/07/2008, Economia, p. 27

FIASCO EM GENEBRA: "A relação entre Brasil e Argentina piorou. Essa pode ser uma das piores perdas para o país"

Para ex-ministro, Brasil sai perdendo duplamente ao rachar G-20 e Mercosul, e ainda não levar nada na OMC

Bruno Rosa

Com o fracasso nas negociações da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), o G-20 - grupo formado por grandes países emergentes, como Brasil, China e Índia - sai com sua posição abalada. A avaliação é do ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, que foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Segundo ele, o Brasil sai perdendo duplamente: criou dificuldades com China e Índia, aliados do G-20, e Argentina, parceira do Mercosul, ao se mostrar favorável às propostas de Estados Unidos e União Européia (UE), que acabaram nem sendo aceitas. A seguir, os principais trechos da entrevista de Ricupero ao GLOBO:

FRACASSO DE DOHA: "Para o Brasil é uma pena porque nós nos tornamos o principal advogado da liberalização da agricultura. A falta de um acordo nos coloca no marco zero. E isso é ruim. Fizemos um esforço grande para entrar em acordo com os EUA e a União Européia. Ao mesmo tempo criamos mais dificuldades com China e Índia. E todo esse embate foi por nada. Agora, essas negociações vão deixar cicatrizes".

ABALO NO G-20: "O que vai acontecer é que todo o esforço do Brasil acabou abalando o G-20, que vem prestando serviços importantes desde Cancun. E, durante as negociações em Genebra, ficou claro que cada um dos países emergentes têm um interesse. Historicamente, o G-20 tem posição de não aceitar a postura dos EUA e da Europa no que diz respeito às questões da agricultura. E agora fica claro que Brasil tinha interesse em avançar na agricultura, pois tem bastante competitividade nesse setor, e China e Índia não estavam interessadas no assunto, pois sua agricultura é baseada em pequenos agricultores. Prova disso é que esses países defenderam acionar mecanismos quando as importações subirem 10% em relação à média dos últimos três anos. E esse teto é muito baixo. Isso torna muito difícil uma posição equilibrada entre os países do G-20".

FUTURO DO G-20: "Será muito difícil o G-20 se manter. As posições ficaram muito claras. O Brasil mostrou em Genebra que quer ter acesso não só ao mercado de Europa, Japão e EUA, mas também ao da China e Índia. E como é que se vai encontrar essa fórmula, já que esses países não querem abrir sua agricultura".

MERCOSUL: "A principal derrota é com a Argentina, principal parceiro do Brasil no Mercosul. Ao caminhar positivamente em direção às propostas dos EUA e UE, o país acabou se desgastando com os outros emergentes. E assim a relação entre Brasil e Argentina piorou. Por isso, essa pode ser uma das piores perdas para o país".

FUTURO DE DOHA: "Doha ainda não acabou. Agora, estão falando que a próxima reunião será em setembro. Vamos ver. Eu já vi fracassos piores na Rodada do Uruguai, que ficou parada durante anos e só terminou após várias crises. O que tem de ver é qual será a fórmula que será negociada".