Título: ONG: China é displicente com trabalho infantil
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 27/07/2008, Economia, p. 33
Conclusão é baseada em centenas de entrevistas com empresários, familiares e crianças empregadas no país.
PEQUIM. Quando, no ano passado, a imprensa estatal chinesa chocou o país ao denunciar que olarias da pobre província de Shanxi usavam mão-de-obra escrava para produzir tijolos, o espanto maior veio da constatação que, entre as centenas de trabalhadores resgatados, 109 eram crianças, raptadas de suas famílias em outras regiões do país. Num país que se gaba de ter instituído um sistema de ensino básico obrigatório e gratuito de nove anos, poucos admitem que um dos maiores flagelos da China hoje é o trabalho infantil.
O Ministério do Trabalho recusou um pedido de entrevista do GLOBO sobre o assunto, enquanto o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Jiang Yu, se limitou a afirmar, em entrevista coletiva, que a China respeita os padrões de trabalho reconhecidos internacionalmente e que o país é signatário da convenção da OIT que proíbe o trabalho infantil (abaixo de 16 anos).
Mas uma coisa é o discurso oficial chinês e outra a prática num país onde vale tudo em nome do crescimento econômico. A organização de Hong Kong China Labour Bulletin (CLB), fundada em 1994 pelo ativista em defesa do trabalho Han Dongfang, publicou um estudo sobre o trabalho infantil, intitulado ¿Pequenas mãos¿, em que constata a existência do problema, especialmente entre as famílias mais pobres das áreas rurais, sem que as autoridades chinesas façam algo a respeito.
¿Nós jamais saberemos exatamente quantas crianças trabalham por toda a China hoje, em parte porque as revelações de informações sobre casos de trabalho infantil são consideradas `altamente confidenciais¿... O governo chinês não faz estatísticas sobre o tema e de fato é pouco claro se as autoridades estão mesmo monitorando ou documentando o problema. A resposta oficial das autoridades quando indagadas sobre a questão é dizer que a China aprovou leis proibindo esta prática...Até recentemente, em outras palavras, o governo tem agido em estado de negação sobre o assunto¿, conclui o estudo, baseado em centenas de entrevistas com empresários, familiares e mesmo crianças empregadas em três províncias chinesas.