Título: Sem-terra paraguaio anuncia novas invasões
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 30/07/2008, O Mundo, p. 32

Líder do movimento, que se reuniu com presidente eleito, Fernando Lugo, revela que fazenda de brasileiro será ocupada

Ricardo Galhardo

SÃO PAULO e ASSUNÇÃO. Movimentos de trabalhadores sem-terra do Paraguai retomarão as ocupações de fazendas na região de fronteira com o Brasil, e donos de terra brasileiros são um dos alvos. O anúncio de novas ações de invasão de terras - que foram motivo de apreensão de brasiguaios e provocaram reação diplomática brasileira - foi feito no momento em que um dos líderes do movimento, Elvio Benítez, entrava para se reunir com o presidente eleito, Fernando Lugo.

Segundo Benítez, as ocupações serão feitas entre 12 e 15 de agosto, dia da posse de Lugo. Ele disse que serão invadidas a fazenda de um brasileiro (sem dizer quem) e de um argentino no departamento de San Pedro. Também afirmou que outras ações serão feitas no departamento de Amambay.

O líder sem-terra se reuniu ontem com Lugo para convidá-lo para participar do relançamento da Coordenação de Produtores Agrícolas de San Pedro Norte, grupo sem-terra que é considerado um dos mais radicais.

O agricultor paranaense Orestes dos Santos, dono há 16 anos de 51 hectares na cidade paraguaia de Santa Teresa, já cogita voltar para o Brasil:

- Já apelamos para a Justiça, agora não temos mais o que fazer a não ser esperar. Se não tiver solução vou encher as malas e voltar para o Brasil ou morrer defendendo minha terra.

Brasiguaios depositam esperança em Lugo

Paradoxalmente, as esperanças de Santos e dezenas de agricultores brasileiros de Santa Teresa estão na posse de Lugo:

- Nossa esperança é Lugo. O homem é um bispo e diz que vai acertar o país. Para fazer isso ele tem que respeitar a Justiça.

Ontem, a presidente da Associação de Produtores de Soja do Paraguai, Cláudia Russer, se reuniu com o futuro ministro do Interior, Rafael Filizzola, logo depois do anúncio da nova onda de invasões. Ela comunicou a ele o temor de uma escalada de violência nas áreas de conflito, mas Filizzola disse estar de mãos atadas até a posse de Lugo. Ele prometeu conversar com as autoridades do atual governo e com líderes sem-terra para evitar o agravamento da situação principalmente nos departamentos de San Pedro e Amambay.