Título: Proposta da OMC provoca racha no Mercosul
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 27/07/2008, Economia, p. 34
Para evitar fracasso, organização prorroga negociações até quarta-feira. Índia também resiste a acordo e divide G-20.
GENEBRA, LISBOA e BRASÍLIA. A adesão do Brasil ao pacote apresentado pelo diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Pascal Lamy ¿ numa tentativa de salvar a Rodada de Doha, cujas negociações, que acabariam ontem, foram prorrogadas até quarta-feira ¿ afastou o país de dois poderosos aliados: a Índia, líder com o Brasil no G-20, e a Argentina, parceira no Mercosul. Ambos rejeitaram o pacote. E o bloco latino, mais uma vez, se dividiu.
Os argentinos não gostaram de o Brasil ter aceito o acordo. A equipe de negociadores da presidente Cristina Kirchner, enfraquecida devido à crise no campo, esperava voltar para casa com um trunfo na negociação da OMC. E contava com o Brasil para bater forte e extrair até a última concessão dos países ricos, sobretudo em agricultura.
¿ A decisão do Brasil criou tensão no Mercosul ¿ disse à France Presse o negociador-chefe da Argentina, Alfredo Chiaradia.
Lula: `não quebramos solidariedade com G-20¿
Mas para o Brasil, o que está na mesa hoje é melhor do que um eventual fracasso da Rodada de Doha, como são chamadas as negociações para abertura do comércio mundial.
¿ O que os argentinos querem? Que estejamos unidos em torno do fracasso da rodada? ¿ perguntou um membro da delegação brasileira.
Ontem à noite a rodada estava nas mãos principalmente de três países: Índia, Argentina e África do Sul. Os três rejeitaram o pacote parcial apresentado por Lamy, na sexta-feira.
São vários os pontos que distanciam Brasil e Argentina na Rodada de Doha agora. Os argentinos não aceitam a oferta dos americanos de reduzir seus subsídios agrícolas para US$14,5 bilhões por ano. O Brasil acha a proposta ótima. O Brasil também aceitou a proposta de Lamy para um corte de 54%, em média, das tarifas para produtos industriais. Os argentinos alegam que isso quebraria sua indústria. Lamy também propôs uma fórmula que permitirá ao Mercosul proteger setores ¿sensíveis¿ de sua indústria: corte tarifário menor para 14% das linhas tarifárias do Mercosul. Argentina rejeitou: quer corte menor para 16% das linhas.
Perguntado sobre o racha no Mercosul, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que se encontrou ontem com o chanceler argentino, Jorge Taiana, negou mal-estar entre os parceiros
¿ O Mercosul sempre sobreviverá.
Outra distância é com a Índia, aliado-chave do Brasil no G-20, o grupo de países em desenvolvimento criado em 2003 para fazer frente ao poder dos países ricos.
Celso Amorim defendeu a posição brasileira, detalhando as áreas onde o G-20 conseguiu avanços. A Índia não concorda, e a Venezuela de Hugo Chávez menos ainda: os venezuelanos rejeitam todo o pacote. Para Amorim, chegou-se mais longe do que se imaginava.
¿ Agora, é tudo que a gente queria? Não é. É o ideal? Não é. Mas isso é uma negociação.
Em Lisboa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não quebrou o pacto de solidariedade com os outros países do G-20 ao aderir à proposta de Lamy e afirmou que acredita na possibilidade de um acordo até quarta-feira.
¿ O Brasil não quebrou solidariedade nenhuma. Participamos do G-20, queremos que o acordo seja de interesse do G-20, mas vocês hão de convir que dentro do G-20 temos assimetrias e disparidades enormes entre os países. Os interesses dos países não são os mesmos, embora nós precisemos encontrar um denominador comum. Eu continuo acreditando que nós vamos fechar o acordo.
Para especialistas, avanços concretos só em 2010
O presidente disse que os países mais pobres da América Latina e da África sairão perdendo se as negociações de Doha fracassarem, pois esses países não terão mercados para vender seus produtos agrícolas, sobretudo, num momento de crise de alimentos.
¿ Não falo isso pelo Brasil, porque o Brasil é competitivo na área da agricultura, tem tecnologia, tem terras, tem água, somos um dos grandes produtores agrícolas do mundo. Falo por países menores da América Latina, pelos países africanos, que precisariam de flexibilização do mercado europeu e do fim dos subsídios americanos para poder colocar seus produtos nesses mercados.
Criada em meados da década de 1990, numa conjuntura neoliberal na qual a abertura de mercado era um preceito inabalável, a OMC passa por um profundo desgaste. Não está só enfraquecida, como ficou demonstrado nas negociações ao longo da semana passada. Perdeu também credibilidade. Por isso, poderá entrar numa fase de transição que, segundo especialistas, pode levar até dez anos.
¿ A OMC acabará se transformando num fórum de resolução de problemas a partir de regras já existentes. Essa fase, que chamo de transição, poderá durar até dez anos ¿ afirmou o assessor de Relações Internacionais do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Laudemir Muller.
O diretor de Negociações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mário Marconini, acredita que qualquer avanço só deverá ocorrer, no mínimo, em 2010. Mesmo na hipótese de um acordo.
¿ Um acordo, mesmo magro, moraliza o sistema multilateral. Para o Brasil, não é só uma questão de filosofia. Quanto mais competitivo o Brasil está, mais é alvejado pelos demais mercados com medidas protecionistas.
COLABORARAM Eliane Oliveira e Geralda Doca, com agências internacionais