Título: Moscow City, marca de nova era
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 03/08/2008, O País, p. 10

Centro financeiro de R$15 bilhões, com prédios de luxo e à moda ocidental, pode virar um dos maiores da Europa

Vivian Oswald

Os imensos arranha-céus de vidro e aço da chamada Moscow City destoam do estilo dos outros prédios da cidade. Os edifícios moscovitas costumam ser mais horizontais do que verticais, e de aparência muito menos arrojada (para dizer o mínimo no caso dos antigos blocos soviéticos que se vêem por toda parte). Avistam-se a grande distância as torres ¿ a Naberezhnaya é atualmente a mais alta da Europa ¿ deste projeto visionário que custou US$15 bilhões, cerca de R$23,74 bilhões, ou um pouco mais da metade do que a Receita Federal brasileira arrecadou com impostos e contribuições em junho deste ano.

Dez anos atrás, ninguém diria que este delírio do prefeito de Moscou, Iuri Lujkov, de criar na capital do país um dos maiores centros financeiros do mundo, sairia do papel. O fato é que hoje 4.500 pessoas já ocupam os modernos espaços para escritórios nos prédios da Moscow City, como ficou conhecido o Centro Internacional de Negócios de Moscou. E, se as obras forem concluídas dentro dos prazos previstos, calcula-se que 200 mil funcionários estejam trabalhando ali até 2014.

Este é o prazo com o qual a prefeitura pretende contar, porque coincide com a data dos Jogos Olímpicos de Inverno, que acontecerão no balneário russo de Sochi. A região onde foi construída a Moscow City foi revitalizada e modernizada com o que há de melhor para padrões internacionais. A Torre Russa, que deve ser a segunda mais alta do mundo, perdendo apenas para a Burj, em Dubai, está programada para 2012. Tudo isso a pouco mais de seis quilômetros de distância do Kremlin ¿ o centro do poder.

¿ A linha do horizonte russa pouco mudou desde a década de 50, na era de Stálin. Os prédios agora estão mais altos. E o país mostra que projetos de mais de cinco anos são possíveis ¿ diz James Brooke, diretor de Relações Externas e Projetos Especiais da empresa de consultoria imobiliária Jones Lang LaSalle.

Linha de metrô foi criada

Não foram poupados esforços para que o centro financeiro não deixe nada a dever a outras praças como Londres, Nova York, Tóquio ou Xangai. Arquitetos de renome internacional participaram em várias partes do complexo, como o inglês Frank Gehry, que está à frente do projeto da Torre Russa. A prefeitura se encarregou de fornecer a infra-estrutura para atender a região. Foi criada uma linha de metrô especial. As duas estações que já ficaram prontas mantêm o padrão moderno e são enormes. Quem passa por elas se assusta com as dimensões exageradas para tão poucos usuários. Uma terceira estação deve ser construída.

Já foi anunciada também a duplicação da grande avenida em volta do complexo, a criação de 30 mil vagas para carros e um serviço especial de transporte a partir dos quatro aeroportos moscovitas até o centro de negócios. Diz-se que suprimentos e até funcionários poderão chegar a Moscow City pelo rio e se deslocar lá dentro por pequenos trens. A idéia é evitar congestionamentos nesta área que concentrará centenas de escritórios, empresas, hotéis e apartamentos residenciais. Resta saber se isso será possível, tendo em vista o tradicional caos do trânsito na cidade.

Do elevador interno (panorâmico) que atende apenas os cinco primeiros andares da Torre Federação, ala Leste, tem-se uma imagem ainda pouco comum dos escritórios russos. Andares inteiros abertos com mesas e equipamentos, sem paredes, divididos pelo sistema de baias. Tudo muito moderno e bastante ocidental.

O edifício, que parece um imenso labirinto, é cheio de mármores, corredores e elevadores que só faltam falar. Nos primeiros andares, onde está prevista a instalação de um centro gastronômico e butiques de luxo, grandes lojas de itens luxuosos, como os russos gostam, começam a tomar conta dos imensos espaços vazios.

As duas alas da torre da Federação terão ainda apartamentos residenciais com decoração de Giorgio Armani, um hotel butique do Hyatt, e vários andares do Hyatt tradicional, que vai administrar a área de SPA e piscina. No 93º andar da ala Oeste, a mais alta, haverá um observatório possivelmente com uma das melhores vistas de Moscou, restaurantes e boates.

Da janela do 52º andar, da ala leste, onde funciona o escritório de vendas de espaços neste prédio e em outras torres do complexo, a funcionária responsável aponta para o velho prédio amarelo de cinco andares em formato de caixote lá embaixo e explica que ali será haverá um novo edifício de 10 andares.

Maioria dos espaços vendida

As obras de Moscow City tiveram início em 1992, pouco depois de a União Soviética ruir, e ainda não foram concluídas. Em 1998, pararam, como o resto do país, que mergulhou em uma crise econômica. O projeto foi uma iniciativa da prefeitura de Moscou e tem, segundo os administradores, só dinheiro russo. Nos últimos anos, o que não falta é dinheiro neste país que cresce a 7% ao ano, principalmente em função das bilionárias receitas de petróleo e gás. Há grandes bancos estatais instalados ali. E, ao que parece, uma das torres já teria sido comprada pela gigante do gás Gazprom. Dizem os responsáveis pelas vendas que a grande maioria dos espaços já teria sido vendida e será objeto de revenda ou aluguel no futuro.

Para se ter uma idéia das cifras, o metro quadrado dos apartamentos residenciais na Torre da Federação custam a partir de US$14 mil (ou R$22,22 mil), dependendo do andar e da vista do imóvel, que deve ter entre 200 e 400 metros quadrados. Os espaços para escritório custam a partir de US$18 mil (R$28,44 mil) o metro quadrado.

O movimento de operários nos canteiros de obras é incessante. Trabalham dia e noite e, dada a quantidade de alojamentos, dormem por ali mesmo. As gruas em constante movimento, o barulho de caminhões e máquinas a todo o vapor mostram que ainda há muito até se completar este que deve ser o maior projeto urbanístico desde o fim da União Soviética.

Em 1931, na antiga capital soviética, o ditador Josef Stálin decidiu mandar construir imponentes monumentos pela cidade. O gigantesco Palácio dos Sovietes, edifício que seria maior do que o Empire State Building, já tinha local escolhido. Destruiu-se a Catedral de Cristo Salvador para instalar o prédio ali. A igreja foi implodida e o palácio não saiu do papel. O terreno era pantanoso e, por isso, a obra não daria certo. No lugar, fizeram uma piscina aquecida ao ar livre. A igreja foi reconstruída na gestão de Lujkov, o mesmo prefeito que agora quer desafiar o Ocidente com o que pode vir a ser um dos maiores complexos financeiros do mundo, com pelo menos dez dos edifícios mais altos da Europa.