Título: Remessas elevam déficit externo a US$17,4 bi
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 29/07/2008, Economia, p. 23
Resultado registrado no semestre foi o pior da História. Em junho, saldo negativo ficou em US$2,596 bilhões.
BRASÍLIA.Conseqüência da explosão das remessas de lucros e dividendos pelas multinacionais e da redução do saldo comercial, o primeiro semestre de 2008 registrou o pior resultado da conta corrente (transações de bens e serviços do Brasil com o exterior) da História - desde 1947, início da série. O rombo ficou em US$17,402 bilhões. Só em junho, o déficit, de US$2,596 bilhões, foi mais do que o dobro do estimado pelo Banco Central (BC), próximo a US$1,2 bilhão, surpreendendo até o mercado. A situação só não é alarmante porque os investimentos estrangeiros diretos continuam financiando o descasamento.
A conta corrente integra, com a conta financeira (investimentos), o balanço de pagamentos. Quando um está negativo, o outro precisa financiar o rombo, mantendo equilibrado o chamado setor externo.
BC estima rombo de US$2,8 bi em julho
Alguns analistas alertam, porém, que a deterioração pode se acentuar. Num fluxo de 12 meses, o déficit fechou junho representando 1,32% do Produto Interno Bruto (PIB). Já há quem aposte que chegará a 2% a curto prazo. Por isso, está acesa uma luz amarela sobre o cenário. Para julho, o BC já estima um rombo nas contas de US$2,8 bilhões. Entidades como o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) temem que tenha sido estabelecido um novo patamar de déficit.
- Por enquanto, a situação é tranqüila. Mas a confiança tem sido muito grande no investimento direto, e isso não depende do país (e sim do apetite e do humor dos investidores) - afirmou o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, para quem as transações correntes fecharão com saldo negativo de US$27 bilhões em 2008.
O fator a desequilibrar é o volume de remessas ao exterior. No semestre, elas somaram US$18,993 bilhões, também recorde histórico. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, explicou que o movimento, além de refletir o bom momento da economia brasileira, é influenciado pela crise internacional. Esta leva as filiais brasileiras a remeterem mais recursos às matrizes, que estão sofrendo prejuízos. Em julho, até ontem, as remessas somavam US$2,06 bilhões.
A balança comercial também contribui negativamente, devido a saldos cada vez menores. No semestre, foram US$11,349 bilhões, quase US$9 bilhões menos do que em igual período de 2007. Pesam ainda os gastos com viagens internacionais, que bateram recorde no mês passado e no semestre. Os déficits foram de US$621 milhões e US$2,635 bilhões, respectivamente.
O economista do Banco Real Cristiano Souza acredita que ainda é grande a chance de o sistema de câmbio flutuante reequilibrar o saldo. Quanto mais déficits em conta corrente, menos dólares entram no Brasil, o que tende a depreciar o real frente ao dólar.
- E isso pode ajudar nas exportações. Não é um cenário de fim de mundo - afirmou Souza, que projeta o real a R$1,85 no fim de 2009.
Enquanto esse efeito não se materializa, o Brasil continua dependente dos investimentos estrangeiros diretos. Foram US$16,702 bilhões entre janeiro e junho. Para o ano, a previsão é que alcance US$35 bilhões, estabelecendo novo recorde.
Fluxo cambial acumula déficit de US$4 bi
O impacto negativo das remessas de lucros e dividendos das multinacionais também é observado no fluxo cambial. O item levou a conta financeira - pela qual são feitos pagamentos e investimentos - a déficit de US$4,190 bilhões entre os dias 1ºe 24. Até o dia 11, a perda líquida estava em US$3,441 bilhões. As compras de moeda para operações financeiras somaram US$34,441 bilhões até o fim da semana passada, e as vendas ficaram em US$38,631 bilhões.
A contribuição para atenuar o déficit veio do fluxo comercial, positivo em US$1,779 bilhão até o último dia 24, com US$12,891 bilhões em contratos de exportações e US$11,112 bilhões de importações. Até o dia 11, o saldo era positivo em US$2,614 bilhões, com as importações em US$4,529 bilhões.