Título: Bolsa que o gringo não vê
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 07/08/2008, Economia, p. 23

AMEAÇA GLOBAL

Sete setores e 39 ações do Ibovespa superam índice no ano

Felipe Frisch

As fortes quedas nos últimos meses do principal indicador da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o Ibovespa, não refletem o que acontece com todas as ações negociadas no pregão. Embora a sensação seja de recuo generalizado, o investidor deve estar consciente de que é o índice - uma carteira teórica composta pelas ações mais negociadas, 67 atualmente - que cai e não a Bolsa, ou todas suas ações. Nesse índice, hoje, as ações de Vale e da Petrobras têm peso de 33% e são as que mais têm sofrido com as quedas das commodities (matérias-primas, como petróleo, ferro e aço) no mercado internacional. Um estudo feito pela consultoria Economatica a pedido do GLOBO mostra que, das 67 ações que compõem o Ibovespa, 39 (mais da metade, 59%) superam o índice e 29 (43%) estão em alta no ano. Em geral, são ações não ligadas às matérias-primas, como bancos, empresas de energia, telecomunicações, comércio e alimentos.

As ações do banco estadual paulista Nossa Caixa sobem 82,86% no ano, diante da possibilidade de compra pelo Banco do Brasil (BB). Em seguida, os papéis da Transmissão Paulista - empresa de transmissão de energia no estado - sobem 53,69%. Os da Eletrobrás têm alta de mais de 29%. Os papéis do setor de energia elétrica, aliás, de acordo com o estudo, sobem, em média, 9,40%, superando o Ibovespa, que acumula perdas de 9,93% no ano até ontem.

Setor de siderurgia é 2º melhor colocado

Já os papéis das mineradoras caem, em média, 25,09%, e os de petróleo e gás perdem 23,54%. As ações preferenciais (PN, sem direito a voto) da Petrobras aparecem na 54ª posição, em queda de 24,18%. As PNA da Vale caem 28,34%, na 58ª colocação.

Considerando todas as ações da Bolsa - e não apenas as que fazem parte do Ibovespa - o setor de siderurgia ainda é o segundo melhor colocado, com rentabilidade média positiva de 17,30%, apesar das quedas recentes das ações, com as desvalorizações das commodities. Em seguida, vem o setor de alimentos, que sobe 9,54%. As ações da Sadia, por exemplo, sobem 22,54%. A liderança de rentabilidade é do setor de agrícola, com valorização média de 43,61%, mas representado por cinco empresas com ações pouco negociadas.

- A siderurgia está positiva, mas já esteve "mais positiva" e chegou a acumular 40% no ano - alerta Eduardo Roche, analista da Modal Asset.

Otimismo com bancos e construção

O setor de energia tende a se proteger de quedas, diz Roche, pois as empresas têm garantido o repasse integral da inflação - outro temor atual do mercado - aos consumidores. É diferente do que acontece com as empresas de telefonia, que hoje possuem índice próprio de reajuste, o IST, que vem sendo bem inferior à inflação medida pelo IPCA e pelo IGP-M.

O economista-chefe da corretora Ágora, Álvaro Bandeira, avalia que boas oportunidades de recuperação podem estar no setor de construção e no bancário, que caem 22,10% e 19,56%, em média, no ano:

- Mas, quando o mercado se normalizar, são justamente as ações que caem agora, como Vale, Petrobras e siderúrgicas, que vão se recuperar.

Eram esses papéis que vinham ajudando o Ibovespa a ficar em alta até o começo do ano, enquanto as commodities estavam em alta mundial.

O economista-chefe da Plenus Gestão, Alexandre Espírito Santo, avalia que as ações de bancos tendem a recuperar parte das perdas, com o crédito crescendo e os juros em alta. Ele também aposta no setor de construção civil no caso de uma melhora do mercado. Com o governo tentando frear o consumo - via alta de juros -, no entanto, ele não vê com bons olhos as ações do setor de varejo.