Título: Delúbio faz e acontece no jogo político em Goiás
Autor: Gois, Chico de
Fonte: O Globo, 10/08/2008, O País, p. 15
Ex-petista tem influência até para parar processos
Chico de Gois
GOIÂNIA. O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, réu no processo do mensalão e expulso do partido, é um homem que ainda mantém muitos amigos, independentemente da cor partidária. Alguns discretos, mas poderosos. Tão poderosos e misteriosos como o próprio Delúbio. São essas amizades que paralisam processos parar e movimentam enlaces políticos, por exemplo. Graças às suas amizades em Goiânia, a ex-estrela petista vê dormir, desde janeiro de 2006, na Procuradoria Geral do Estado, um processo administrativo que recomenda sua demissão a bem do serviço público e a devolução do salário recebido indevidamente, uma vez que não dava aulas.
Seu salário de professor de matemática está suspenso desde 2005, e outro mistério que o cerca é: de que vive o homem que movimentava milhões no PT e repassava outros tantos para aliados? Ninguém sabe. As novas amizades podem lhe garantir até uma legenda para que ele tente realizar o sonho de um mandato de deputado federal, em 2010.
Delúbio atua sem aparecer muito. Foi assim na decisão do PT de se coligar ao PMDB do atual prefeito de Goiânia, Iris Rezende, que disputa a reeleição. Seu grupo impôs a derrota, por um voto, aos contrários a essa opção e conseguiu emplacar, inclusive, o candidato a vice. Amigo do PMDB, mas também com uma mão no ombro do PP do governador Alcides Rodrigues - em que pese que, no estado, os dois partidos não se tolerarem. Até mesmo ao PSDB, do ex-governador e senador Marconi Perillo, o ex-petista já foi útil. Essa disposição para a servir e ajudar faz com que Delúbio seja personagem importante no estado.
Antes de submergir, a volta às ruas em grande estilo
Recluso para o grande público, o ex-tesoureiro do PT deu as caras na semana passada nas ruas de Goiânia em grande estilo. Acompanhou o prefeito Iris numa caminhada que marcava o início da campanha do peemedebista. Assediado por fotógrafos e repórteres, submergiu para onde sabe atuar como poucos: os bastidores da vida política. O prefeito, líder isolado nas pesquisas, com preferência de mais de 70% do eleitorado, minimizou a presença do pagador dos mensaleiros entre seus apoiadores:
- Ele veio apoiar a candidatura do irmão, o vereador Carlos Soares (PT).
As amizades de Delúbio lhe são úteis. O processo que o colocaria fora da lista de servidores goianos está parado na Procuradoria Geral do Estado. O GLOBO tentou falar durante três dias com alguém da Procuradoria que explicasse o caso. Não conseguiu resposta:
- Ah, não é comigo, vou lhe repassar para a procuradoria administrativa - disse a assessoria de imprensa.
- Isso não é comigo. Vou lhe passar para o doutor Luiz Kimura - repassou Maria Helena Inácia de Lima Uchôa, procuradora-chefe administrativa.
Kimura é chefe de gabinete do procurador-geral, Francisco Florentino de Sousa Neto.
- Está em reunião - respondeu a secretária, nas três tentativas, sem mais retorno.
Delúbio já foi condenado em maio de 2007, em primeira instância, a devolver aos cofres públicos R$161 mil.
- Que figura jurídica o mantém no serviço público sem trabalhar nem receber salário? - pergunta o promotor Fernando Krebs, que abriu inquérito civil público para saber por que Delúbio não foi exonerado.