Título: Rússia invade a Geórgia
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 09/08/2008, O Mundo, p. 37

Exército trava violentos combates com tropas georgianas para impedir tomada da Ossétia do Sul

Vivian Oswald

A Rússia invadiu ontem a Geórgia com soldados, tanques e aviões, entrando num violento confronto armado com tropas georgianas. O conflito, que matou centenas de pessoas no dia em que as atenções internacionais se voltavam para o início das Olimpíadas de Pequim, foi uma resposta de Moscou à decisão da Geórgia de retomar militarmente a região da Ossétia do Sul de grupos separatistas. Os Estados Unidos, alarmados, pediram para os russos deixarem o país invadido rapidamente.

Os combates assustaram a comunidade internacional, e ONU, União Européia e governos como os de França, Alemanha e Reino Unido, pediram um cessar-fogo imediato. A secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, defendeu a ¿integridade do território¿ georgiano e resolveu mandar um enviado para acompanhar a situação.

Na guerra não declarada, há informações contraditórias. Moscou acusa os georgianos de atacar alvos civis, entre eles cidadãos russos e soldados das tropas de paz russas estacionadas na região. Tbilisi garante que a ofensiva é legítima defesa contra ataques de separatistas sul-ossetas, apoiados pelos russos. Para o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, o país está em guerra com a Rússia.

Dados do governo separatista da Ossétia do Sul, ainda não confirmados de forma independente, indicam que mais de mil pessoas ¿ a maioria civis ¿ teriam morrido no bombardeio georgiano durante a madrugada de sexta-feira, antes da invasão russa e do início dos encarniçados combates entre forças dos dois países.

¿ Cerca de 1.400 pessoas morreram. Checaremos este número, mas a ordem de grandeza é essa ¿ disse o presidente da Ossétia do Sul, Eduard Kokoity. ¿ Chegamos a ele com base em relatos de parentes.

A Geórgia diz ter tomado a capital separatista, Tskhinvali, e a maior parte da Ossétia do Sul. Mas os rebeldes afirmaram que blindados russos já teriam chegado ao norte da cidade, rechaçando militares georgianos. Imagens da capital sul-osseta mostram que ela foi duramente atingida no bombardeio. Bairros teriam sido destruídos, assim como o principal hospital, onde cirurgias estariam sendo realizadas nos corredores.

¿ Vi corpos espalhados pelo chão, em volta de prédios arruinados, dentro de carros. É impossível contar todos. Parece que não sobrou um só prédio que não tenha sido atingido ¿ disse Lyudmila Ostayeva, de 50 anos.

Moscou acusa georgianos de limpeza étnica

De acordo com a agência de notícias Ria-Novosti, 12 soldados das tropas de paz da Rússia teriam sido mortos em confronto com os georgianos, e 150 estariam feridos.

Na primeira crise de seu governo, o presidente russo Dmitri Medvedev convocou reunião de emergência do Conselho de Segurança Nacional. Depois, disse na TV:

¿ Não vamos deixar impunes os responsáveis pela morte de nossos compatriotas, e os culpados terão o castigo que merecem. Pela Constituição, tenho por obrigação proteger a vida e a dignidade de nacionais onde quer que eles estejam.

Medvedev não esclareceu se se referia aos soldados russos da força de paz na região ou a cidadãos sul-ossetas com nacionalidade russa ¿ nos últimos anos, Moscou concedeu a cidadania russa a milhares de sul-ossetas.

Já o presidente georgiano Saakashvili, pró-Ocidente, acusou a Rússia de estar lutando uma guerra contra os georgianos em seu próprio território. Durante todas as entrevistas que concedeu ao longo do dia de ontem, Saakashvili tinha ao fundo a bandeira de seu país e a da União Européia, embora não pertença ao bloco e sequer esteja na lista oficial de países candidatos.

Fontes militares georgianas disseram que os ataques russos não se limitaram à Ossétia do Sul. Até uma base militar num subúrbio da capital da Geórgia, Tbilisi, teria sido bombardeada por aviões russos. A Geórgia afirmou que derrubou cinco caças russos.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou ter recebido informações de que os georgianos estariam promovendo uma limpeza étnica em algumas cidades da região separatista. Ontem à noite, o governo da República russa da Ossétia do Norte, que faz fronteira com a Ossétia do Sul, disse que 140 ônibus com refugiados atravessaram a fronteira, fugindo do avanço georgiano.

A Geórgia avisou que vai retirar mil soldados do Iraque para reforçar suas tropas. Fontes do governo disseram que o presidente Saakashvili decretaria estado de exceção a qualquer momento. Dividido, o Conselho de Segurança da ONU não conseguiu chegar a um acordo para uma declaração sobre o conflito.