Título: Pesquisas: Morales tem mandato confirmado
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 11/08/2008, O Globo, p. 22
Presidente pede pacto, fala em Constituinte e em ampliar socialismo. Oposição teria perdido dois governadores
Soraya Aggege
LA PAZ e COCHABAMBA. O presidente da Bolívia, Evo Morales, foi aprovado no referendo nacional realizado ontem, segundo pesquisas de boca-de- urna. As projeções indicam que seu governo foi ratificado com 60,7% dos votos, sete pontos a mais do que ele obteve ao ser eleito, em 2005. Também teriam sido confirmados nos cargos seus mais fortes opositores, os prefeitos (governadores) de Santa Cruz, Rúben Costas; de Beni, Ernesto Suárez Sattori; de Tarija, Mário Cossio; e de Pando, Leopoldo Fernandez. Dois opositores, os governadores de La Paz, José Luis Paredes, e de Cochabamba, Manfred Reys, teriam perdido seus cargos, assim como Aberto Aguillar, de Oruro, da situação.
Os discursos da vitória de ontem à noite mostraram que a polarização ganhou uma dimensão ainda maior na Bolívia. De Santa Cruz, maior foco da oposição, o governador Costas anunciou que, unido aos outros três governadores das terras baixas, iniciará hoje um processo de autonomia na região oriental boliviana. Ele disse que criará uma polícia própria e um sistema de arrecadação autônomo e que a região resistirá ao "fundamentalismo aimará" de Morales. Costas afirmou que não respeitará as decisões do presidente por se sentir respaldado pelo voto de seu departamento.
Morales fez um discurso mais prudente. Parabenizou os adversários, mas avisou que vai aprofundar sua revolução socialista.
- Precisamos unir o Oriente ao Ocidente boliviano. E a melhor forma de unir será a nossa nova Constituição - disse.
Ele afirmou ainda que vai aprofundar o processo de retomada dos recursos nacionais e priorizar a eliminação da extrema pobreza que atinge metade da população.
- A nossa revolução democrática e cultural não é importante só para a Bolívia, mas para todos os latino-americanos e revolucionários do mundo - disse, antes de encerrar o discurso aos gritos de "Pátria ou morte".
Fortalecido, Morales anunciou duas novas diretrizes polêmicas: aprofundará o socialismo na Bolívia e tentará forjar um pacto nacional. Ele tentará levar adiante a aprovação da nova Constituição, tema que mais divide o país. O resultado oficial do referendo será anunciado oficialmente em uma semana.
- Estes resultados vão permitir que haja um novo cenário político na Bolívia - disse Morales, logo ao votar.
Presidente quer manter boas relações com o Brasil
Mais tarde, o presidente afirmou que a guinada ainda mais à esquerda que pretende dar à Bolívia não é um feito isolado na região:
- Na América Latina há uma grande rebelião contra as políticas econômicas que não resolvem os problemas sociais e econômicos das grandes maiorias nacionais.
Perguntado sobre suas relações com os governantes vizinhos, afirmou, sem citar nomes, que sente um "respeito único" pelos presidentes da América Latina.
- Convocarei todas as autoridades ratificadas para buscar consensos com os movimentos sociais, sejam sindicais ou cívicos, para que o povo aprove uma Constituição do Estado Boliviano.
O projeto da nova Carta foi aprovado em 2007 de forma polêmica pela Assembléia Constituinte, mas ficou pendente para ser aprovado em referendo. A oposição não aceitou mudanças, que incluem desde uma ampla reforma agrária até o ensino dos idiomas indígenas no lugar do inglês. Segundo Morales, para haver reconciliação alguns governadores terão que "deixar de ser racistas".
O ministro de Governo, Alfredo Rada, afirmou ao GLOBO que a primeira medida seria a retomada da Constituição. A idéia do governo é reconvocar os constituintes já eleitos e terminar o processo.
- O que se votou foram duas formas de definir o país: socialista ou neoliberal. Agora será o socialismo. Vamos seguir a lei, mas haverá mais estatizações e recuperaremos o país - disse Rada.
Segundo ele, o Brasil não precisa temer os rumos da Bolívia, em função de seus investimentos no país:
- Manteremos as nossas boas relações econômicas e políticas com o Brasil. De modo geral, as empresas que quiserem investir aqui, como sócias, serão bem vindas. Só não aceitaremos exploração.