Título: Nova disputa paira sobre Jirau
Autor: Tavares, Mônica ; Bôas, Bruno Villas
Fonte: O Globo, 13/08/2008, Economia, p. 21

Suez antecipa assinatura de contrato mas fala em espionagem

Gustavo Paul

BRASÍLIA. Em meio à intensa troca de acusações com o consórcio formado pela construtora Norberto Odebrecht e a estatal Furnas, o consórcio Energia Sustentável, capitaneado pela franco-belga Suez, assinou ontem, quatro meses antes do previsto, o contrato de concessão para a construção da hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia. O discurso dos representantes da Suez explicitou a estratégia de mudar o foco da discussão e neutralizar as críticas dos adversários ao projeto vencedor. Mas uma nova briga judicial já se desenhou - não sobre o projeto em si, mas sobre acusações de espionagem -, após os apelos do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, para que não haja uma guerra entre as empresas na Justiça.

O presidente do Energia Sustentável, Vitor Paranhos, garantiu que não pretende puxar briga com a Odebrecht. Mas não poupou os adversários de críticas por uma suposta espionagem industrial. Uma documentação apresentada pelo Jirau Energia ao Ibama na semana passada, com argumentos técnicos contra a proposta da Suez, teria documentos confidenciais do grupo franco-belga.

- Eu não tenho um dossiê, mas recebi quatro folhas dessa documentação com papéis a que só nós teríamos acesso. Não sei como foram parar lá, e agora vamos tomar mais cuidado - disse Paranhos.

A resposta da Odebrecht veio à noite, na forma de uma interpelação judicial contra Paranhos na Justiça de São Paulo. A empreiteira quer que o empresário confirme que a Odebrecht teria feito espionagem industrial e que a Suez e seus executivos teriam sido alvo de escutas telefônicas, conforme Paranhos declarou ao jornal "Valor Econômico".

Na cerimônia de assinatura do contrato, Lobão protagonizou um momento constrangedor: passou um pito público nos dois consórcios. Na frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de executivos e outras autoridades, ele advertiu os dois concorrentes de que não poderá haver atraso nas obras e pediu que não desencadeiem uma guerra judicial:

- Faço um apelo para que os consórcios se entendam. O governo não vai admitir que uma briga entre duas empresas prejudique toda a população brasileira.

Consórcio promete inaugurar usina em dezembro de 2011

Depois, Lobão reiterou que o governo poderia tomar alguma medida drástica, como cassar as concessões, caso não haja acordo. Semana passada, ele já havia dado um ultimato, cobrando uma solução. Na sexta-feira, o ministro será o anfitrião de um encontro entre Marcelo Odebrecht e Maurício Bähr, responsáveis pelas duas empresas, em busca de um entendimento.

A Suez prometeu rapidez para entregar energia antes até da usina de Santo Antônio, no mesmo rio, licitada em dezembro e que deve começar a gerar energia em 2012. Tentando agradar ao governo, Paranhos enfatizou que o consórcio pode começar a obra imediatamente, se receber todas as licenças, e entregá-la no fim de 2011, bem antes do prazo, 2013:

- O Brasil tem pressa. Se começarmos a obra no próximo mês podemos convidá-los para a inauguração em 31 de dezembro de 2011, daqui a exatos 1.236 dias.

Para conseguir antecipar a assinatura da concessão, o consórcio abriu mão de novos sócios estratégicos no projeto. Além disso, a Suez pediu ao Ibama apenas a licença para o canteiro de obras, que permitirá a instalação de máquinas antes do início do período de chuvas, em outubro. O pedido de licença de instalação para toda a obra será apresentado em setembro. Paranhos também garantiu que o empreendimento terá preocupação especial com o meio ambiente, em uma alusão às críticas da Odebrecht de que a obra terá impacto negativo na região.

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, deixou claro que a área ambiental não vai se contaminar pela disputa empresarial:

- A gente não vai entrar em briga de comadre. Temos de fazer um trabalho sério, técnico, profissional.

COLABOROU Mônica Tavares

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