Título: Cacciola: ironia e silêncio na Justiça
Autor: Suwwan, Leila
Fonte: O Globo, 14/08/2008, Economia, p. 25

Ex-dono do Banco Marka depõe por crimes contra o sistema financeiro

Bruno Villas Bôas

Com aspecto abatido e sem o sorriso de um mês atrás - quando foi encarcerado no presídio de segurança máxima Bangu 8, no Rio -, o ex-banqueiro Salvatore Cacciola prestou depoimento ontem em duas audiências na 2ª Vara Federal Criminal, no Rio, onde responde por crimes contra o sistema financeiro. Na primeira audiência, em que foi testemunha de defesa, Cacciola ironizou o conhecimento sobre finanças da procuradora da República sobre operações financeiras. Na segunda, em que era réu, ficou em silêncio.

Beneficiado por um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal, o ex-dono do Banco Marka chegou ao prédio da Justiça Federal sem algemas. Ele vestia um uniforme penitenciário: camiseta branca e calça jeans.

Advogado diz que vai denunciar Brasil em Mônaco

Os dois processos na 2ª Vara Federal Criminal - referentes ao caso Teletrust, de 1999 - correm parcialmente em segredo de Justiça, sob responsabilidade do juiz federal Alexandre Libonati. Por isso, as audiências, realizadas em conjunto, ocorreram a portas fechadas. Elas duraram cerca de uma hora e 20 minutos.

Segundo um dos advogados de defesa do ex-banqueiro, Carlos Ely Eluf, a relutância de Cacciola em responder às perguntas se deve ao acordo de extradição assinado entre Brasil e o Principado de Mônaco. Ele afirmou que, pelo acordo, Cacciola pode responder apenas pelo processo da 6ª Vara Criminal, no qual Cacciola já foi condenado a 13 anos de prisão por corrupção passiva, gestão fraudulenta de instituição financeira e informação privilegiada no Marka.

- Vamos fazer uma denúncia contra o Brasil no Principado de Mônaco. O acordo não está sendo cumprindo - disse Eluf, acrescentando que outras duas audiências sobre o processo de ontem foram marcadas para os dias 10 e 11 de setembro, às 13 h.

Na terça-feira, o advogado tentou suspender a audiência de ontem na qual Cacciola foi réu, pedido que acabou sendo recusado pelo juiz. Recentemente, em outro processo, na 5ª Vara Federal, a defesa conseguiu suspender a audiência.

Segundo o Ministério Público Federal, a empresa Telestrust teria emitido, entre 1996 e 1997, cerca de R$368 milhões em debêntures (títulos de dívida corporativa) sem lastro, o que configura crime financeiro. Cacciola teria participado do esquema, segundo a acusação, como responsável pela estruturação financeira da operação.