Título: Diplomata foge do cárcere
Autor: Lima, Flávia
Fonte: O Globo, 18/08/2008, Rio, p. 8

A GUERRA DO RIO

Conselheiro vietnamita escapa de favela com três chineses, mas dois deles continuam sumidos

Flávia Lima

Chegou ao fim, quase 30 horas depois, o seqüestro do conselheiro da embaixada do Vietnã no Brasil, Vu Thanh Nam, e de três chineses que tinham sido levados por 12 homens armados na Estrada das Paineiras, a 300 metros do Corcovado, na manhã de sábado. As vítimas fugiram ontem à tarde do cárcere, uma cisterna na Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão, na Penha. Do grupo, no entanto, dois chineses ainda não tinham sido localizados até o início da madrugada.

Para o subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública, Rivaldo Barbosa, o crime não foi um assalto a turistas. Ele não descarta inclusive a possibilidade de o seqüestro ter sido encomendado pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que cumpre pena no presídio de segurança máxima de Campo Grande (MS). No dia 4 deste mês, a Polícia Federal descobriu um plano de Beira-Mar e do traficante colombiano Juan Carlos Abadía, também preso em Campo Grande, para seqüestrar parentes de autoridades. Os bandidos tinham o objetivo de usar as vítimas como moeda de troca para conseguir a sua liberdade e a de outros integrantes da quadrilha.

- Vamos examinar o fato com o maior rigor, pois a primeira linha de investigação diz que não se trata de assalto a turista. Chegamos próximo ao alvo (a polícia fez uma operação no Complexo do Alemão no sábado à noite) e os bandidos facilitaram a fuga das vítimas, saindo do local onde elas estavam. A apuração continuará sendo conduzida pela Delegacia de Atendimento ao Turista (Deat) e pela inteligência (da Secretaria de Segurança) - disse Barbosa, que ficou intrigado pelo fato de nada ter sido roubado das vítimas, pois os equipamentos, como celulares, entregues aos bandidos foram abandonados num matagal.

Para o delegado da Deat, Fernando Veloso, no entanto, o alvo dos criminosos que agiram na Estrada das Paineiras era o grupo de chineses. Perguntado sobre qual seria a motivação do seqüestro, o policial respondeu:

- O foco eram os chineses. Ainda não está esclarecida a motivação para o crime, pois o grupo era composto de empregados não especializados. Não eram engenheiros, eram pedreiros.

Sobre a possibilidade de o crime ter sido um ato terrorista, o governador Sérgio Cabral ponderou:

- Isso seria uma especulação agora, mas esperamos chegar o mais rápido possível a uma solução - disse o governador, antes de as vítimas fugirem do cárcere.

Morador de favela ajudou diplomata

Sujo, de calça comprida, camisa branca e chinelos, Vu Thanh Nam voltou para o Hotel Ibiza, em Copacabana, onde estava hospedado, na tarde de ontem. Ele chegou de táxi, entrou no hotel e voltou para pagar a corrida ao motorista. Também devolveu os chinelos, que haviam sido emprestados por um morador da favela. Após prestar depoimento informal ao delegado Fernando Veloso, o conselheiro disse estar aliviado.

- Estou muito contente por ter conseguido escapar. Vim passar férias no Rio com meu pai, irmão e cunhado e fomos atacados. Foi horrível - contou.

Apesar do susto, ele disse que voltaria à cidade:

- Volto ao Rio porque trabalho no Brasil, mas meu pai não sei se volta.

Sobre a ação dos bandidos na Estrada das Paineiras, o diplomata contou que confundiu os assaltantes com policiais. Por causa disso, identificou-se como vice-embaixador (o cargo de conselheiro corresponde a essa função). Logo depois, foi colocado com um dos chineses no porta-malas de um dos carros. As outras duas vítimas foram levadas em outro veículo da quadrilha.

O grupo foi colocado numa cisterna no quintal de uma casa na Vila Cruzeiro. O espaço que serviu de cárcere tinha nove metros quadrados, luz elétrica e era coberto por um tapume. Os bandidos deixaram com as vítimas água e biscoitos. Em nenhum momento falaram com o vietnamita e os chineses.

Durante a noite, os quatro tentaram chamar a atenção de vizinhos, batendo nas paredes e gritando. Ontem, no início da tarde, o grupo conseguiu retirar o tapume e escapar. Dois chineses pularam o muro do terreno, mas o diplomata e outro refém fugiram pelo portão.

Na favela, Nam e o chinês foram abordados por um morador, que ofereceu ajuda chamando um táxi na comunidade. Desconfiado, o chinês, que não fala português, ficou com medo e se recusou a entrar no veículo. Inicialmente, o morador levaria o diplomata para a delegacia, mas Nam preferiu ir para o hotel. Ele recompensou o morador com R$1,5 mil.

À noite, um dos chineses foi localizado, andando, desorientado, em Del Castilho. Desconfiados de que ele poderia ser um dos seqüestrados, pedestres chamaram policiais da 44ª DP (Inhaúma). Liu Chang Hong, que reclamou de fome e sede, foi levado para a delegacia. A polícia ainda não sabe o paradeiro dos dois outros reféns, que, assim como Liu, trabalham para a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), em Santa Cruz, onde vivem num alojamento da empresa.

O Ministério das Relações Exteriores informou que recebeu com grande satisfação a notícia da libertação de Vu Thanh Nam. Em nota, o órgão informou que "as autoridades policiais do Rio de Janeiro estão procedendo às investigações pertinentes, cujo andamento o Itamaraty continuará a acompanhar".

Também em nota, a ThyssenKrupp, controladora da CSA, disse que os técnicos chineses "estão legalmente no país e possuem vistos temporários de trabalho emitidos pelas autoridades competentes". A companhia também informou que eles compõem o quadro profissional da CITIC, empresa responsável pela construção da coqueria (onde se produz o carvão) do complexo siderúrgico que está sendo implantado em Santa Cruz.

COLABORARAM: Fernanda Pontes e Isabel Araújo